domingo, 28 de maio de 2017

Em busca do Não-Poema: breves apontamentos sobre a poética de Thiago Scarlata

Foto: Dérika Virgulino
Por Hilário Francisconi*  

    O livro de poesias “Quando não Olhamos o Relógio ele Faz o que Quer com o Tempo”, de Thiago Scarlata, Editora Multifoco, RJ, 2017, é uma obra que nos chega imersa em contagiante energia de um jovem poeta que, em paralelo, também é músico.


    Participante de Antologias poéticas e finalista do Prêmio SESC de Literatura 2016, o autor nos brinda com versos que não apelam para métricas ou rimas, aliás, como reza o modelo hodierno, na conquista de seus leitores.

    Um categórico e fino humor já nos salta aos olhos, de início, com “Não-Poema”, menos ainda para “desculpar-se” e ainda mais para alertar-nos para o fato de o conteúdo do poema justificar, por si mesmo, o seu título: “a você da leitura só peço / que não perca a postura e me acuse / de furto de tempo ou não ter alertado / se tiver qualquer tipo de dúvida / é só reler o cabeçalho”, pág. 13.

Foto: Thiago Scarlata

        Mas é sempre atento às circunstâncias sociais que Thiago, com alguma revolta, pergunta: e quem, afinal, / gera com tamanha imprecisão / (lodo e pressão) / o cronograma dos chafarizes?”, pág. 21.

    Ao longo de sua jornada poética, no livro, Thiago segue deixando pistas de sua intimidade com o domínio sobre o conhecimento humano, extraído de suas vivências e experiência já aflorada, ao detectar, talvez inconscientemente, a existência das “máscaras compulsórias” que compõem o Ego no homem, como em (...) era um homem / fantasiado / de guarda de trânsito”, pág. 23, no momento em que, certo dia, depara-se com um funcionário municipal a controlar o tráfego na cidade.

   Evidentemente, não será este o exemplo a marcar, definitivamente, o tom saudosista de Scarlata, muito embora possamos notar, em algumas passagens, a sua inconfundível melancolia como em Elegia”, pág. 28: Recordo-me do riso / que desde pequeno / vim perdendo pelos dias / a cada dente que nascia (...)”. Mas está em “Matinal”, pág. 34 (não que seja o único modelo!), o sinal de sua inventividade no campo das imagens, no universo das grandes metáforas: “Cheiro de café é canto de galo”.

        Ora, mas quem entende mesmo de sensibilidades? Sem dúvida, as crianças e os poetas! Isto podemos perceber, e também com a sensibilidade de leitores que somos, em Só criança entende mágico / a nós o truque / é má fé / que hoje vende-se / na rua”, pág. 56. De outro lado, ao nos ocuparmos com a fonética do idioma, vemos na poesia de Thiago fonemas a gritarem fricativos e em marcante simbiose com o significado imagístico, como em O Lajedo do Pai Mateus” (à Paraíba): “quanto ferro, fibra e carbono / quanto claustro e tormenta /contém o refino da rocha?”, pág. 62. Porém, se lá alguma porcentagem de saudosismo, como vimos, também cá uma parcela do sentimento de perda, em “Bagagem”, pág. 67: peço apenas aos de luto / que no meu funeral / depositem ao fundo / de meu bolso / (vou pra longe) / uma moeda / para Caronte”.

         Este é Thiago Scarlata, porém, não inteiramente aqui, pois que a grandeza de sua obra é do tamanho de seu espírito, mas acerca desta enigmática esfera nada sei e nada poderei dizer.


*Hilário Francisconi é membro da Academia Niteroiense de Letras, licenciado em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira pela Faculadade do Centro Educacional de Niterói/RJ e autor dos livros "O Enigma do Lago - Uma Viagem Mística ao Mundo Interior" e "A Floresta de Bernardo".

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