sexta-feira, 18 de agosto de 2017

A Incandescência de O Avesso da Lâmpada

*Por Thiago Scarlata


Abro o texto com o primeiro poema do livro, de nome Recanto, pág 19: “ergo um museu de silêncios / entre besouros cegos e esporões perdidos / em uma praça que fica no coração da memória. / aprendi que a verdade é um signo inflamável, / que os bares vendem ausências / e que as pessoas estão cheias de vazios. / meu recanto é uma varanda no hipotálamo / ateliê onde rumino um orfanato de cartas / e rabisco pequenos infinitos. / carrego sempre um peso a mais / um insólito equilíbrio, uma poética selvagem / para me defender do grito sanguíneo do tempo suicida / - escondo minhas relíquias no avesso da lâmpada / onde as palavras têm febre e a matéria se bifurca.”.

Como uma inscrição na entrada de um templo, o poema abre-alas sintetiza bem toda a arquitetura e estrutura do livro. O avesso das coisas é a morada da poética de Demetrios Galvão. Não espere em Avesso da Lâmpada (Moinhos, 2017) nada puramente descritivo ou literal. O poeta não confunde, em nenhum dos poemas, prosa com poesia, e, para além da forma, sabe que não basta o formato de um poema para um poema ser poesia. É preciso outros elementos, muitos deles sem nomes, e que tampouco podem ser “ensinados”, como algumas oficinas de escrita criativa tentam, mas que Demetrios sabe manejar, através de uma mão que é só dele.

Senti no primeiro capítulo, que possui o mesmo título do livro, uma forte pegada fílmica. Musculatura Cinética, pág 23, fez-me recordar do cinema russo clássico, com sua valorização da pura imagem, de tomadas longas em pontos fixos, sem fala alguma (apesar do texto e da brevidade do poema), como um transcorrer das águas de um rio num filme de Eisenstein, um dos pioneiros do que poderíamos chamar de “filmagem poética”. Vejamos a seguir, o poema o qual me refiro: “os rios seguem um curso imaginário / em uma parte do corpo, as águas transbordam / em outra, elas se afogam / na margem do silêncio esférico / as árvores frutificam / uma espiritualidade indomável / reviro a linguagem / à procura de um amuleto / - palavras que alimentem a vida. / resisto com todas as manhãs / - não tenho tempo para envelhecer.”

Demetrios Galvão - 2017

Em Silêncio das Formas, segundo capítulo do livro, o autor prossegue com seu ritmo característico e a ele adiciona algo, o qual eu não seria capaz de nomear, mas que faz drenar mais substância ainda das coisas. Em trechos como os dos poemas Sonho Hereditário, pág 43: “os cactos / tem a paciência / os gatos / a elegância”, e de Voz Vegetal, pág 44: “desvendar / a memória / das plantas / - suas raízes / mais profundas”, já nos fornecem os fragmentos necessários para seguirmos no enlaço do mais fino dessa vigorosa arte que Demetrios nos proporciona, entretanto, eu não poderia fechar o meu comentário sobre este capítulo sem transcrever, na íntegra, o meu poema predileto do livro. Falo de O Besouro, pág 47: “os besouros / são mestres / de lições incomuns. / preferem o silêncio / e o passo arrastado. / não sofrem de ansiedade / ou com a angústia dos homens. / habitam uma espessa carapaça, / uma caixa forte, / para proteger um segredo / sem voz. / desembrulham no ar / um impreciso movimento, / um voo sem conciliação. / - são convencidos / do seu estranho / lirismo.”.

Metais Pesados, aloca-se na ideia integral do livro, como uma ramificação impressionista, e, como o autor já havia provado pelos outros capítulos, sua obra pode funcionar tanto num paralelo com um filme, quanto com uma tela. Os oito poemas que o integram, pensados em conjunto, acrescentam uma luz necessária à beleza do livro, como podemos exemplificar em Correspondência #1, pág 56: “houve um tempo / que meu coração / não tinha o infinito / dos dias de hoje. / - estadia no subsolo - / não era permitido / o cheiro do café e / o sabor das palavras. / não existia varanda / visita da lua / música iluminando os ouvidos. / - colecionava planos de fuga / para um apocalipse inesperado - / no fundo do aquário / os peixes desenterram o passado / como exercício de memória. / - me acostumei a enterrar cadáveres / dentro de livros.”.

No epílogo de Cidades Rabiscadas , parte final da obra, o autor escolhe competentemente um forte trecho de Afonso Henrique Neto, que agora compartilho com vocês: “desenterrar uma cidade é surpreender uma fábrica de espaços. [...] desenterrar uma cidade é uma montagem de abismos.”, e é isso que Demetrios faz neste desfecho. Nos traz, dessa vez, não mais um “filme” ou um “quadro”, mas um álbum com trinta distintas “fotografias”, com seu olhar tão peculiar sobre a cidade, das quais destaco a décima, pág 73: “fechar as janelas diante do simulacro e / se derramar pelos diversos andares da cidade / “pelo hipertexto de suas entranhas / de suas tripas magnéticas / de sua fauna nervosa e / sua flora deserta em seu rizoma de concreto.”; a décima oitava, pág 77: “buscar uma fenda onde se esconder / no paradoxo luz/sombra / um itinerário desconhecido nos bastidores do trânsito / sob as sobrancelhas das janelas.” e a última, pág 83: “todo poema esconde uma cidade: / rostos dopados, entorpecidos de vertigens. / e para lá... / para além do arame farpado / para além da janela de tinta / para além do mau humor ou da felicidade da palavra / ecos telepáticos da cidade subterfúgio / ecos subterrâneos da cidade nômade.”.
        

         As analogias que fiz com outros gêneros artísticos, não devem ser tomadas como fixos a cada capítulo que deleguei, mas de uma maneira perceptiva completamente livre. A poética de Demetrios Galvão é de uma liquidez absurda e foi isso que busquei apontar neste breve texto. Ler O Avesso da Lâmpada é a prática do exercício dos contrários. Uma imersão profunda em pequenos infinitos, personificados nos versos deste grande poeta piauiense. Uma experiência, sem dúvida, transcendental. 




Foto: Emanuelle Chaves - 2016
Demetrios Galvão, Teresina/PI. É poeta, professor e historiador, com mestrado em História do Brasil. Autor dos livros de poemas Fractais Semióticos (2005), Insólito (2011), Bifurcações (2014), o Avesso da Lâmpada (2017) e do objeto poético Capsular (2015). Participou do coletivo poético Academia Onírica e foi um dos editores do blog Poesia Tarja Preta (2010-2012) e da AO-Revista (2011-2012). Edita a revista Acrobata, o blog Janelas em Rotação e colabora no site LiteraturaBr.






*Thiago Scarlata é poeta, músico, escritor e criador/editor do Blog Literário Croqui. Teve poemas publicados nas Antologias “Âmago” (Editora Regência/SP - 2011) e “Prêmio Sesc de Poesia Carlos Drummond de Andrade 2016” e também nas Revistas “Gueto”, “Escamandro” “Mallarmagens” e “Poesia Brasileira Hoje”, além de blogs literários. Foi finalista do PRÊMIO SESC DE LITERATURA 2016 , vencedor do CONCURSO MOTUS – MOVIMENTO LITERÁRIO DIGITAL 2017 e finalista do III CONCURSO DE POESIA “PRÊMIO JAYME ROLDON 2011. Após esse hiato de 5 anos, retoma a escrita e agora publica seu primeiro livro de poesia, de título “Quando Não Olhamos o Relógio, Ele Faz o Que Quer Com o Tempo”, pela Editora Multifoco.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Entre a máscara e a revelação no romance Veneza

*Por Alexandra Vieira de Almeida


            Ao ler o esplendoroso e arrebatador romance de Alberto Lins Caldas, Veneza, recordo-me da imagem da Terra como paraíso, o Éden de Leibniz, com seu dizer de que habitamos o melhor dos mundos possíveis. Alberto Lins Caldas vai além, revelando um mundo tenso, denso, em que convivem a beleza paradisíaca da cidade do coração do narrador-personagem Pierre Bourdon, Veneza, com suas águas, cheiros, alimentos apetitosos, numa revelação sinestésica, em que os sentidos aguçados na narração nos levam ao corpo saboroso desta cidade ímpar, com o inferno da miséria dos seres, os desvalidos, os viciosos, e a melancolia do próprio Pierre que tenta captar a imagem de sonho/pesadelo da realidade. No conto de Voltaire, “Cândido ou o otimismo”, em que o filósofo-escritor francês ironiza Leibniz, o personagem passa por todos os infortúnios e mesmo assim é otimista. O autor deste belo Veneza, mostra-nos um personagem que passa por vários problemas devido à sua paixão por mulheres casadas e, por isto, caminha para a iminência da morte: “Livros e mulheres foram sempre o meu fraco...” Logo no primeiro livro do romance por ora aqui estudado, a narrativa se constrói como uma preparação para a morte, como podemos encontrar na história dos grandes filósofos: “...e nesses extremos se delineia a ironia da minha vida e a razão da minha morte”.

            De um lado temos, no início do livro, a vivacidade de um personagem que busca o prazer a qualquer custo. A poeticidade e lirismo com que o narrador-personagem narra a beleza idílica e a exaltação do local vista do interior do quarto em Veneza se alongando para as imagens vistas pela janela, acrescentando cores, como se estivesse revelando uma bela pintura, reproduzem a máxima horaciana “Ut pictura poesis” (A poesia como pintura). A força descritiva de Caldas, com constantes adjetivações e enumerações, só reforça esta realidade icônica de sua obra. Esta realidade pictórica de sua escrita é uma estratégia narrativa para reter a memória, pois sua escrita é uma rememoração dos momentos paradisíacos e infernais da história de Pierre Bourdon. Se desde a apresentação com o achamento de um Códice onde estaria esta narrativa encontrada no lixo pelo editor-autor, temos a falta de precisão, o romance em questão fruto deste Códice impreciso, revela um paradoxo rico de estética. A constante adjetivação do narrador-personagem, que não sabemos se ele é real, é uma forma de acobertamento também da falta de precisão que a própria memória pode levar, já que ela, segundo Derrida, em seu livro Farmácia de Platão, seria exterior à escrita ao analisar uma passagem de Fedro, de Platão; pois a escrita é pharmakón, tem seu remédio, mas também traz o veneno. O papel do editor-autor foi ordenar, colocar ordem no que é caótico do próprio Códice, num processo de organização composicional, inserindo epígrafes em cada um dos sete livros, que por sua vez, são divididos em três capítulos.

               Ao longo do romance, temos um amadurecimento de Pierre Bourdon, em que a bile negra - a melancolia - se manifesta com o passar dos anos, num processo de autoconhecimento e autorreflexão, cujo primeiro motor é o espelho da ilha em que ele se mira. Ao ver aquelas pessoas paradas na ilha, após a viagem de navio com seu fiel criado, o Mouro, compara tudo num amálgama só (pessoas, árvores, animais). É neste espelho da ilha, que Pierre observa o rosto do mundo mais de perto e a falta do espaço interno, o lar, o joga para o mundo, percebendo os contrastes dele, a vida-morte, dor-prazer, miséria-riqueza, revelando a intensa compaixão dele pelas coisas do mundo, levando-o a partir daí a seus delírios e melancolia. O quarto de Pierre é o mundo, em sua miniatura-metonímia, a cidade de Veneza, ao invés do quarto minúsculo do autor francês Xavier de Maistre, com sua Viagem ao redor de meu quarto, com suas constantes digressões, que influenciaram Machado de Assis. O espaço do externo inebria Pierre com suas sensações, desde o mais belo ao mais repugnante. Em Pierre, o amadurecimento no ato da escrita revela um narrador excepcional: “...e que no tempo não entendia em sua extensão, mas hoje ecoa bem fundo e com plena verdade em todo o meu ser...”

              O Mouro, o que dizermos do criado fiel amigo de Pierre Bourdon? Ele é o equilíbrio em meio ao desequilíbrio, o silêncio em meio ao discurso e livros do amo, a cura em meio à doença, a realidade em meio ao delírio e loucura de Pierre, Sancho Pança e Dom Quixote. Em meio à melancolia do narrador-personagem, o Mouro traz o riso. Em meio aos unguentos, ervas medicinais, banhos, Pierre vai estendendo sua vida num cobertor de vida e morte. Pierre tem o poder de ironizar-se, é sarcástico consigo mesmo, culpabiliza-se num mundo gestado pelo Mal, como ele chama. Se o universo está longe do bem, com a fome, o abandono, a morte, o sofrimento, a velhice, a humilhação, a espera, como explicar o problema do Mal e Deus, uma questão dos filósofos? Guimarães Rosa mostrou, em Grande sertão: veredas, este poder demoníaco na natureza, nas coisas. E como escapar dele? Pierre num processo de esvaziamento de sentido, de Deus, diz: “Pela primeira vez não senti Deus nem neles nem mais em mim”.

                   Pierre não entende aquilo que não diz respeito à sua vivência. Por isto, para ele, escrever é rememorar, uma luta contra o esquecimento e a própria morte. Por isto ele fala antes de morrer: “...recordar antes de esquecer”. No seu viés mimético, ele deve deixar algumas coisas na obscuridade, não quer saber tudo, aquilo que não lhe apraz ou condiz com seu elemento. Ele conversa consigo mesmo e com o leitor no seu processo de escrita, revelando seu livro como um grande monólogo narrativo com intensa dose de dramaticidade, beirando ao trágico, sem ter, paradoxalmente, diálogos diretos entre personagens: “Por que? então querer me enfronhar em imprestáveis minúcias, cansando minha cabeça, sem nenhuma utilidade, sequer servindo, como agora, para a revivescência dessa escrita.”

Veneza, de Alberto Lins Caldas (Editora Penalux, 2017)

               A imagem de Pierre é como a própria Veneza, um abismo, um mistério, um segredo, como as águas, o mar. Ele é sem chão, sem firmeza, desconhecido para ele mesmo. A água seria este batismo de esquecimento? O caos em meio ao ordenamento da escrita? Na viagem no mar, no navio, Pierre alcança este vazio. O vazio do quadro branco e das cores carregadas do início do livro. Este vazio é o riso do Mouro. Se Pierre é carregado de linguagem, livros, o Mouro é a não-linguagem, o esquecimento, o vazio, o silêncio, as duas faces, paradoxalmente de Pierre Bourdon e da sua escrita: “Todo mundo é um ator” (Mundus universus exercet histrioniam). O prazer da vida leva o narrador-personagem ao prazer e gosto amargo da tinta. Enquanto o Mouro tem medo do mar, das águas profundas, Pierre é todo água, flutuante e conflitante. Ele se adensa na água. Pierre é caracterizado como vírgulas, pontos e interrogações. O Mouro é reticente. No mar, Pierre poderia morrer, mas o Mouro não teria o corpo da mulher. O Mouro vê a fatalidade iminente e Pierre provoca a Desdita por nada, brinca com a Sorte, o Destino. Isto demonstra no romance de Caldas uma dramaticidade plástica, icônica. Ele cria no mundo uma intimidade de sentidos. Ele utiliza uma linguagem visual, dos olhos, mas que não deixa de ter um processo analítico para as mentes.

                     Se Pierre faz do externo um lar, o interior; o Mouro faz do lar um mundo como vemos na banheira no final da narrativa. O narrador-personagem faz questão de mostrar as diferenciações dos ambientes, dá destaque a cada parte, enfatizando marcas em cada descrição de sua narrativa como num caleidoscópio colorido e multifacetado, como podemos ver no contraste entre o branco e o negro no estábulo dos escravos e das múltiplas cores na fazenda, revelando no ambiente a tensão que ocorreria depois entre ele e o estranho desconhecido. Há uma grande tensão na linguagem, no romance de Caldas. Aqui de novo, no duelo, há a iminência da morte. Esta é o fim da memória e do tempo, da escrita, portanto. O esquecimento é o processo de rasura, de descascamento do ser. Pierre é um ser que hesita, se tensiona. As impressões do narrador se misturam aos delírios e o leitor se pergunta – isto é real ou delirante?

Veneza, Itália, vista de cima (2015)

                    O Mouro é a consciência de Pierre. Ele sempre o está advertindo. É um dique em meio ao transbordamento de Pierre, que vê Veneza como um ser vivo, pronta a ser devorada, num verdadeiro devaneio-degustação da cidade – o corpo de Veneza – como uma mulher, numa verdadeira relação entre amante e amada. A sua real amada, por assim dizer. Numa topografia corporal, Pierre diz: “As tão drásticas mudanças no meu corpo e na minha alma são reflexos dessa cidade...” E o mouro o tira de seus devaneios. No final da vida, em meio à chuva, paradoxalmente, Pierre ri, dá uma “gargalhada sem fim”. Neste sentido, ele incorpora o Mouro. A luz e a sombra, os opostos convivem no final. Após ver a putrefação do irmão mais velho, Pierre se depara com a estátua de um anjo, mostrando a convivência entre o belo e o feio, o nobre e o asco, o alto e o baixo.


              Portanto, temos em Alberto Lins Caldas, um estilo lírico e ácido ao mesmo tempo. E o grande mistério, no final, a grande questão é a própria vida nas muitas faces do ser. Pierre é um ser flutuante, como as águas de Veneza, que transmite admiração e maravilhamento, mas que reflete também a dura realidade, como as pistas que o narrador nos dá no início do livro, quando descreve suas águas cheias de peixes mortos e fezes, distante do lirismo dos poetas. Se o narrador revela a ótica da perversidade, da crueldade, também temos a cura, pois pensar sobre este estágio de desequilíbrio, de doença, é uma forma de equilíbrio, mostrando a forte dramaticidade desta relação. Assim, fica a questão de Alberto Lins Caldas, a linguagem é máscara ou revelação? A resposta cabe ao leitor inteligente como o narrador assim o quer.



“Veneza”, romance. Autor: Alberto Lins Caldas. Editora Penalux, 184 págs., R$ 40,00, 2017.
Disponível em:
E-mail: vendas@editorapenalux.com.br



Alberto Lins Caldas é pernambucano de Gravatá, onde nasceu em 1957. Colabora em jornais do Recife (Diário de Pernambuco, Jornal do Commercio e Diário da Manhã) com artigos de critica literária e poesia. Fundador do grupo informal Poetas da Rua do Imperador. Cursou Historia e Arqueologia na UFPE. Ensaísta proustiano e poeta. Autor dos contos de Babel (2001), dos romances Senhor Krauze (2009) e Veneza (2017), e dos livros de poemas Minos (2011), De corpo presente (2013), A perversa migração das baleias azuis (2016) e A pequena metafísica dos babuinos de Gibraltar (2017).



*Alexandra Vieira de Almeida é Doutora em Literatura Comparada pela UERJ. Também é poeta, contista, cronista, crítica literária e ensaísta. Publicou os primeiros livros de poemas em 2011, pela editora Multifoco: “40 poemas” e “Painel”. “Oferta” é seu terceiro livro de poemas, pela editora Scortecci. Ganhou alguns prêmios literários. Publica suas poesias em revistas, jornais e alternativos por todo o Brasil. Em 2016 publicou o livro “Dormindo no Verbo”, pela Editora Penalux.
Contato: alealmeida76@gmail.com

domingo, 16 de julho de 2017

O Cometa - Bruno Schulz

A época estava sob o signo da mecânica e da eletricidade, e todo o exame das invenções se derramava sobre o mundo das asas do gênio humano. Nas casas burguesas apareceram estojos de charutos equipados com isqueiro elétrico. Girava-se o interruptor, e inúmeras centelhas elétricas acendiam o pavio embebido em gasolina. Isso despertava esperanças enormes. A caixinha de música em formato de pagode chinês, logo que lhe davam corda com uma chave, começava a tocar um rondó em miniatura, girando feito carrossel. Pequenos sinos soavam a cada volta, pequenas portas se abriam, mostrando no cerne do realejo que girava um trioleto de tabaqueira. Em todas as casa se instalavam campainhas elétricas. A vida doméstica decorria sob o signo do galvanismo. A bobina de arame isolado tornou-se um símbolo dos tempos.







Bruno Schulz (1892 - 1942) foi um novelista e pintor ucraniano de religião judia, reconhecido como um dos expoentes da prosa polaca do século XX. Autor de As lojas de Canela 1934), ao qual lhe seguiu Sanatório baixo a Clepsidra três anos depois. Também traduziu O Processo de Kafka ao polaco em 1936. Em 1938 a Academia Polaca de Literatura concedeu-lhe o prestigioso Laurel de Ouro. O estalar da II Guerra Mundial em 1939 tomou Schulz vivendo em Drohobycz, que estava ocupada pela União Soviética. Há informações de que estava a trabalhar numa novela chamada O Messias, mas não há rasto deste manuscrito. Depois da invasão alemã da União Soviética foi forçado, por ser judeu, a viver no gueto de Drohobycz, mas alguns relatos dizem que estava "protegido" por um oficial da Gestapo que admirava os seus desenhos. Durante as últimas semanas da sua vida pintou um mural em sua casa de Drohobycz no estilo que o identifica. Pouco depois de acabar o trabalho, foi fuzilado por um oficial alemão, rival do seu protector, e o seu mural escondido.


 

quinta-feira, 6 de julho de 2017

um poema ou um reclame - Marcelo Labes

calma, eu lhes peço calma
porque de nada adiantaria
um poema escrito lentamente
ser lido agora com pressa.

façamos um trato,
um pacto, uma aliança: este é um poema para
ser lido com calma enquanto a noite chega,
enquanto a manhã se aproxima, enquanto o dia

termina num passo de dança.

em fim de tarde, um risco rosa no céu
era um avião de outono-inverno
vestindo sua calda mais poderosa

e eu ali, balançando no ônibus
das seis da tarde e pensando
nas cores mais poderosas

pensando em tudo que nos roubaram
sempre que puderam. corrijo:
pensando em tudo que me roubaram

das punhetinhas rápidas e comprimidas
às noites de trago e cocaína
trocadas por orações ao anjinho protetor

ou a um deus-sem-nome
na oração da serenidade:
toda idade é idade de arrepender-se.

roubaram-me as tardes vãs de domingo
que pouco ou nada valiam no mercado-negro
de propriedades que assaltamos em pensamento

em troca de cheque especial
e empréstimos impensados
é que ganhamos salário

ou nada disso teria valido a pena
chegar aos trinta e dois anos e o melhor
a oferecer nunca passar de um poema

ou dois: seja isso pretensão ou
derrotismo, não nos interessa
otavianos que discutimos se

o poema ou se a poesia
como se tudo não passasse nunca
de uma soma interminável de palavras.

num b.o. imaginado listamos:

o sonho que sonhamos acordados
enquando digeríamos a esquerda
neoliberal latino-americana;
o desespero sebastianista que já
sabe que o messias não vai voltar
que o rei escondeu as armas e o trono
que deus morreu faz tempo
e que estamos todos sozinhos;
a saudade que dá sempre que lembramos
da bicicleta vermelhamarela, em vão:
não caberíamos mais nela
com esse tamanho
com o peso desses anos todos
tentando acertar o passo
para melhorar de vida;
a vida em si com tudo de vida
que na vida há;
este trocadilho acima,
enfadonho.

acostumamo-nos:

com o aquecimento global
com o fascismo com o racismo
com os aumentos de passagem
de ladroagem de traquinagem
com os discos antigos de
chico buarque com a morte
de belchior acostumamo-nos
com a fuga de jango com o
discurso liberal de mujica
logo nós
logo nós que esperávamos
mais desta e de todas as outras
vidas: as que vivemos e as
que imaginamos agora aqui
acostumados
acostumados
acostumados
e volta e meia reclamando.

e antes que a calma se canse:

não há liberdade que não seja a morte
isso está dito nos seriados netflix
nas teorias da conspiração
nos chemtrails, no glutamato
monossódico,
na direita e na esquerda
venezuelanas,
nos brasiguaios que tentam
invadir a capital do paraguai.

roubaram, os sem-vergonha alguma:

nossa esperança de que o homem
poderá visitar a lua pagando em prestações
nossa esperança de que o ano findará
sem mais mortes de inocentes
nossa esperança de que o amor nos salvará
de todas as dores, de todas as perdas
e a tudo isso nos acostumamos

mas é difícil acreditar que nos roubaram
o inverno, que anteciparam a primavera
isso já é demais e é preciso procurar os
órgãos oficiais para que alguma coisa

seja feita a respeito.



Marcelo Labes é poeta nascido em 1984 em Blumenau-SC. Autor de Falações (EdiFurb, 2008), Porque sim não é resposta (Antítese/Hemisfério Sul2015), O filho da empregada (Antítese/Hemisfério Sul 2016) e Trapaça (Oito e Meio, 2016). Participa da mostra Poesia Agora (edição carioca). Publica no blog http://mmlabes.blogspot.com e mantém a revista O poema do poeta (http://opoemadopoeta.wordpress.com), onde publica originais manuscritos de autores vivos e mortos, do Brasil e do exterior.


segunda-feira, 3 de julho de 2017

Centro - Richard Plácido

*Poema do livro Entre Ratos & Outras Máquinas Orgânicas



daqui de cima
me sinto um estrangeiro
de qualquer lugar

dizem que todo centro é igual
ratos prédios iluminação amarela

ladeira cortejando igreja
árvores ingerindo poeira motorizada

antigos sinos
erguidos aos lados
novos prédios
sinal aberto
fechado
monumentos lacrados

o centro é
cheio de fachadas






Richard Plácido é poeta e contista. Em 2016, publicou o livro entre ratos & outras máquinas orgânicas (Imprensa Oficial Graciliano Ramos). É mestrando em Estudos Literários pelo PPGLL/UFAL, integrante do grupo de pesquisa Literatura & Utopia e do coletivo literário ELISA. Em 2015, foi aluno do Laboratório Sesc de Criação e Expressão Literária, ministrado pelo escritor Nilton Resende. Publicou nas revistas de literatura Alagunas, Mallarmargens, Gueto e Escamandro. Foi premiado em três edições do concurso de contos Arriete Vilela e na primeira edição do concurso Poesia & Utopia. Contato: richardplacido.com | placidorichard@gmail.com.