quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

O Adágio de Crisântemos depois da ausência

*Por Thiago Scarlata



         Crisântemos depois da ausência (Giostri, 2017), do premiado poeta Airton Souza, é um livro, antes de tudo, sobre o tempo. Uma ciranda de vida e morte, de perda e saudade rodeia versos de um lirismo quase épico, que através de uma veia altamente memorial, dá vigor a uma melancolia madura, de uma beleza única: “a impiedade dos dias/caminha para dentro/de mim”.

         A impressão que se tem é que Airton não escreve exatamente em português, mas que seu texto foi traduzido de alguma língua ainda desconhecida. E aqui não falo meramente de estilo, mas de uma estrutura comunicacional distinta, com sua própria mecânica e fluido, não se tratando de enxertos de linguagem como, por exemplo, neologismos, construções herméticas, eliminações de artigos ou inversões predicativas (nada contra quem os utiliza). Os poemas de Airton soam como enigmas inscritos numa língua mista, isto é, estão em português, mas há algo ali que nos instiga. Que, apesar da leitura, vai além da leitura. O poeta parece ter alcançado, se me permitem um clichê necessário, a verdadeira voz de sua alma: “se pudéssemos eleger telhados/sombras retiravam as imagens mudas que os/espelhos sempre identificam/mão fosse o assombro dos dias”.

         A poesia airtoniana é altamente sinfônica. Um adágio em consonância com o que há de mais valioso num poeta: a capacidade de provocar reflexão, espanto ou simplesmente a extração da beleza oculta das coisas.

         “deus e sua cicatriz no olho destro/construíram o estranhável mundo/e tudo aquilo imperceptível/na afiançada língua/ardil de perda e busca”. Os poemas de Crisântemos depois da ausência me remetem muito a mesma essência e ritmo presente nas preces. Aqui, um rogo feito a um deus errante. Não precisamente um pedido ou um questionamento a este, mas a feitura de algo com a matéria-prima (quase sempre devastadora) que Ele deixou ao poeta que, diante da impossibilidade humana de reaver o amor cimentado pela morte, faz de seus poemas flores acomodadas em lápides: signo perpétuo da saudade.

         Crisântemos depois da ausência é tudo isto e mais. Ele é como uma anti-Bíblia. Uma resposta indireta ao livro sagrado, mas não por uma via óbvia, antagônica, ateísta ou qualquer outra coisa de fira a fé alheia. Diria até que são livros complementares. Airton aqui, revela apenas uma outra face de Deus. Um contorno que é só dele. Cada um, aliás, possui uma experiência distinta do divino, negando ou não a religiosidade.

         O poeta, nesta indispensável obra, tece um inventário sensitivo e biográfico. Mostra que, o passado é indissociável do presente. Que estar no mundo, é viver acumulando tanto ausências quanto novas permanências. Assume, em vários momentos, a própria voz do morto, que é a personificação do não-ser, nos deslocando para lugares em que a mera razão não é, nem nunca será, capaz de alcançar. Airton não foge ao seu ofício mais urgente: ser poeta.

         A melhor forma de terminar um texto sobre este poeta, que já se firma como um dos principais nomes da poesia no país, e a obra presente, não é com um parágrafo crítico, mas com um de seus inevitáveis poemas:


  não tenho ramagem para o amanhã
                  contrai espera pela boca
                         que não desperta risos       

             também não antecipo instantes
                      vou até depois das flores
                                   a tanger o canto
 [inaudível verdade sem importância]

                                     tingido de cova
                 lanço o tombo resguardado
           na herança de forjados ombros

                                sou só impassível!

           se nos resta ainda alguma coisa
              entre elas a mão & o mistério
                     a lavar os joelhos difusos
              a calar os murmúrios oclusos

            onde estará, depois da nervura,
                            o naufrágio que cura
                          a véspera da loucura?









Airton Souza é poeta e tem publicado 30 livros entre poemas e literatura infanto-juvenil, além de ter participação em mais de 70 antologias literárias. Venceu diversos prêmios literários, entre eles: Prêmio Proex de Literatura, promovido pela Universidade Federal do Pará – UFPA, 5º Prêmio Cannon de Poesia, Prêmio LiteraCidade de Poesia 2013, Prêmio Dalcídio Jurandir de Literatura 2013, IV Prêmio Proex de Arte e Cultura, com o livro de poemas manhã cerzida,  III Prêmio de Literatura da UFES, promovido pela Universidade Federal do Espírito Santo, com o livro de poemas Cortejo & outras begônias, Prêmio Nacional Machado de Assis, promovido pelo Canal 6 Editora, 1º Lugar no Prêmio LiteraCidade Prosa 2014, 1º Lugar no Prêmio Gente de Palavra 2017, organizado pela Editora Litteris, do Rio de Janeiro, 5º SFX de Literatura 2017, Prêmio Carlos Drummond de Andrade 2017, promovido pelo Sesc de Brasília, I Prêmio CAPT de Literatura 2017, obteve ainda menção honrosa no Prêmio Letrinhas do Brasil, com o livro infantil Os dias dentro da saudade, foi finalista no Prêmio Kazuá de Literatura 2016, com o livro um acenos aos girassóis e só em 2017 esteve entre os vencedores de mais de vinte prêmios literários, entre os quais: 1º Lugar no Prêmio de Poesia Cruz e Sousa, promovido pela Editora Do Carmo, de Brasília, o Prêmio Vicente de Carvalho, da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, com o livro crisântemos depois da ausência, o Prêmio da Academia Ferroviária de Letras, o Prêmio Clóvis Meire – categoria monografia e o Prêmio Vespasiano Ramos – categoria poesia, da Academia Paraense de Letras de 2017 e o Prêmio Nacional de Literatura da Fundação Cultural do Pará 2017, com o livro o tumulto das flores. Atualmente é mestrando de Letras, pela Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará.



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Thiago Scarlata é poeta, músico, escritor e criador/editor do Blog Literário Croqui. Teve poemas traduzidos para o espanhol, publicados em antologias e também nas Revistas Gueto, Escamandro, Mallarmagens, Monolito, Janelas em Rotação, Poesia Brasileira Hoje, Poesia Avulsa, MOTUS, Jornal RelevO, Literatura&Fechadura, além de blogs literários. Foi finalista do PRÊMIO SESC DE LITERATURA entre outros e vencedor do CONCURSO MOTUS – MOVIMENTO LITERÁRIO DIGITAL 2017. É autor do livro de poesia “Quando Não Olhamos o Relógio, Ele Faz o Que Quer Com o Tempo” (Editora Multifoco, 2017).


sábado, 10 de fevereiro de 2018

A Harmonia do Caos em A Serenidade do Zero

*Por Thiago Scarlata
Em A Serenidade do Zero (Penalux, 2018), Alexandra Vieira de Almeida constrói um surpreendente e pressuroso apelo: precisamos voltar ao zero, ao nada.

Para além das resignificâncias do habitual, verve pictórica, quase épica de seus poemas, há neste livro uma gama de signos que não podem ser comentados pela mera via das convenções literárias, estilísticas e de linearidade lógica. Ao invés de respostas morais, acalanto poético pela via do belo (e olha que ela utiliza muito bem seu lirismo, digno de um Bruno Schulz ou uma Adélia Prado), ou a inscrição de perguntas filosóficas meio tachadas, como vemos muito por aí, Alexandra nos dá simplesmente o zero para lidarmos.

O zero da autora é uma espécie de faca que vai, ao longo do livro, cortando absolutamente tudo que é consenso, libertando a língua da relação simbiótica que hoje ela tem com a razão, como podemos notar no trecho do poema Silêncio (pág. 19): “O marasmo das palavras/faz acordar preces/sem um único som”.

Apesar de lidar com o silêncio, o “menor que o pouco” e todo esse relicário de subtrações, a poesia de Alexandra é abundante, deixando a impressão de que cada poema é, na verdade, vários ao mesmo tempo, carregando a cada estrofe e verso uma infinidade de imagens, apontando que sim, há muito que se dizer sobre o nada e a brevidade poética, neste caso e antes de tudo, seria, no mínimo, redundante.

Alexandra é profética, quase apocalíptica. Contudo, ao escrever em A Delicadeza do Silêncio (pág. 32), “O mundo já deu o que tinha de dar”, não faz disto uma ode a pura destruição, mas uma bandeira do antiperfeccionismo, do “homem do outro lado da rua/cúmplice de uma história sem grandes finais”.

Por tudo isso, quando ela escreve “não quero ser o centro nem a periferia/o vazio me basta” em Sem Histórias, Por Favor (pág. 46), não está, dessa maneira, assumindo uma postura “isenta” em relação a sociedade, ao contrário, a poeta se desloca para o núcleo das coisas, onde reside o inaudito. Essa última frase citada, inclusive, me lembrou muito uma contida num dos poemas de Adélia Prado, que diz: “Não quero faca nem queijo/quero a fome”. Essa “fome”, essa “falta” que é o “antes” é a tônica crítica e poética deste belo livro.

Os astrônomos dizem que depois da Grande Explosão, o universo começou a se expandir e não parou mais. Em A Serenidade do Zero, Alexandra propõe o contrário: um Big-Bang invertido em meio a um caos harmonizado regido pela arte, e, encarnando a voz de um menino que conversa com Deus em Gênese do Nada (pág. 69), sacramenta: “A poesia/vem antes da palavra”.



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Alexandra Vieira de Almeida é poeta, contida, cronista, resenhista e ensaísta. É Doutora em Literatura Comparada pela UERJ. Trabalha como professora na Secretaria de Estado de Educação  e tutora de ensino superior a distância na UFF. Publicou quatro livros de poesia: "40 poemas", "Painel" (Multifoco, 2011), "Oferta" (Scortecci, 2014) e "Dormindo no verbo" (Penalux, 2016). Neste ano, publicou seu primeiro livro infantil, "Xandrinha em: o jardim aberto" (Penalux).Publica suas poesias em antologias, revistas, jornais e alternativos por todo Brasil e também no exterior. Tem poemas traduzidos para vários idiomas. Tem um blog de literatura: www.malabarismospoeticos.blogspot.com.br




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Thiago Scarlata é poeta, músico, escritor e criador/editor do Blog Literário Croqui. Teve poemas traduzidos para o espanhol, publicados em antologias e também nas Revistas Gueto, Escamandro, Mallarmagens, Monolito, Janelas em Rotação, Poesia Brasileira Hoje, Poesia Avulsa, MOTUS, Jornal RelevO, Literatura&Fechadura, além de blogs literários. Foi finalista do PRÊMIO SESC DE LITERATURA 2016 e JAYME ROLDON 2011, e vencedor do CONCURSO MOTUS – MOVIMENTO LITERÁRIO DIGITAL 2017. É autor do livro de poesia “Quando Não Olhamos o Relógio, Ele Faz o Que Quer Com o Tempo” (Editora Multifoco, 2017). croquiliteratura@gmail.com 

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Entre Ratos & Outras Máquinas Orgânicas: a poética sem saídas de Richard Plácido

*Por Thiago Scarlata

Após a leitura de Ratos & Outras Máquinas Orgânica, me deparei com uma comparação daquelas de jornalismo meio chulo, onde elenca-se uma figura contemporânea a uma clássica, feita seja para vender jornal, ganhar cliques a partir das manchetes,ou simplesmente falta de alusão melhor. Todavia, tanto por se tratar de um blog de literatura, que naturalmente tem poucos acessos (do mais famoso ao mais tímido), o que me livra de ser tachado de “sensacionalista” ou algo que valha, quanto pelo fato desta associação (meramente interpretativa, é verdade) se colocar inevitável ante a mim, obrigo-me de fazê-la: Richard Plácido é uma espécie de  Kafka da poesia.

Não vou prosseguir este texto gastando tempo confrontando os dois autores, mesmo porque quero me ater somente a este inquietante livro de poesia, tampouco antes perguntar ao poeta (que é meu amigo) se Kafka o influenciou, pois isso realmente não importa. “Kafkiano” é uma expressão. É a cidade, a desesperança, o espanto, a resignação, etc... Mas ninguém precisa ler Kafka para ser “kafkiano”. De qualquer modo, para além da obra geral de Kafka, separei e compartilho agora, antes de entrar no livro em questão, um breve texto do escritor tcheco muito pertinente e que pode ser tomado como uma chave importante para discorremos sobre a poética de Plácido, chamado Pequena Fábula, escrito no início do século passado:

‘“Ah”, disse o rato, “o mundo torna-se a cada dia mais estreito. A princípio era tão vasto que me dava medo, eu continuava correndo e me sentia feliz com o fato de que finalmente via à distância, à direita e à esquerda, as paredes, mas essas longas paredes convergem tão depressa uma para a outra que já estou no último quarto e lá no canto fica a ratoeira para a qual eu corro”. -“Você só precisa mudar de direção”, disse o gato, e devorou-o.”

O “rato” de Richard, sendo máquina e orgânico ao mesmo tempo, é o próprio feeling. Como se o medo tivesse patas. A fome um nariz que fareja o podre, os restos indesejados. E a cidade olhos de rato, apontados pra cada beco, para o underground das coisas. Disse o autor numa entrevista: “Máquinas não tem sentimentos e o rato não tem sentimentos, mas existe uma racionalidade nele que me assusta”. Ao longo da leitura dos três capítulos do livro, “Entre Ratos”, “&” e “Outras Máquinas Orgânicas”, a figura do rato vai se aproximando da nossa. Fui, gradativamente, me identificando com este rato-homem, que através de uma poética anti-lírica, seca, stoner, cheia de punch, vai se alinhando e traçando os mesmo passos que os nossos: um caminho sem volta. Essa “bifurcação” que dá no mesmo lugar: o nada.


Richard Plácido @2017. Foto: Wilker Melo.



Em A Tal Iluminação, fica clara essa confluência entre homem, cidade e  animal, como se todos fizessem parte de algo único e inevitável. Vamos ao poema: “merda de pombo/caiu na boca do cachorro/o cachorro cagou na minha porta/não mereço tal iluminação/boca do cachorro/me mordeu na porta/o pombo se aninhou no telhado/não mereço tal iluminação/o rato roeu a asa do pombo/a pata do cachorro/e a minha boca cagada”.

Richard Plácido é daqueles poetas que dizem mais com menos (particularmente, meus prediletos). Ele, em momento algum, confunde prosa com sua poesia. É daqueles escritores que gasta mais tempo elegendo meia dúzia de palavras (certas) do que geralmente se perde escrevendo um conto, uma crônica ou um capítulo de um romance, por exemplo. É meticuloso. Me confessou que possui somente doze poemas para seu novo livro e que não tem pressa. Entre Ratos & Outras Máquinas Orgânicas segue essa linha enxuta e vigorosa, com um ritmo em que um poema puxa o outro e te leva como numa correnteza sem volta. E realmente, depois de Richard não há volta.
Ilustração: Gustavo Morais




Finalizo com um dos meus poemas prediletos do livro, de nome O Mar: “o barco sempre afunda/pode demorar/mas/afunda/afunda o barco/sempre afunda/como ontem o barco afundou/hoje pode/o barco sempre afunda/mas ontem/sempre o barco/à margem afunda/mar no mar o barco/ontem hoje o barco afundou/no fundo do barco/o mar fere o peixe-boi”.






Richard Plácido é poeta e contista. Em 2016, publicou o livro entre ratos & outras máquinas orgânicas (Imprensa Oficial Graciliano Ramos). É mestrando em Estudos Literários pelo PPGLL/UFAL, integrante do grupo de pesquisa Literatura & Utopia e do coletivo literário ELISA. Em 2015, foi aluno do Laboratório Sesc de Criação e Expressão Literária, ministrado pelo escritor Nilton Resende. Publicou nas revistas de literatura Alagunas, Mallarmargens, Gueto e Escamandro. Foi premiado em três edições do concurso de contos Arriete Vilela e na primeira edição do concurso Poesia & Utopia. Contato: richardplacido.com | placidorichard@gmail.com.



*Thiago Scarlata é poeta, músico, escritor e criador/editor do Blog Literário Croqui. Teve poemas traduzidos para o espanhol, publicados em antologias e também nas Revistas Gueto, Escamandro, Mallarmagens, Monolito, Janelas em Rotação, Poesia Brasileira Hoje, Poesia Avulsa, MOTUS, Jornal RelevO, Literatura&Fechadura, além de blogs literários. Foi finalista do PRÊMIO SESC DE LITERATURA 2016 e JAYME ROLDON 2011, e vencedor do CONCURSO MOTUS – MOVIMENTO LITERÁRIO DIGITAL 2017. É autor do livro de poesia “Quando Não Olhamos o Relógio, Ele Faz o Que Quer Com o Tempo” (Editora Multifoco, 2017).

E-mail: scarlatatts@gmail.com
Telefone: (21) 96962-2336





quinta-feira, 7 de setembro de 2017

O questionamento libertário em Quando não olhamos o relógio, ele faz o que quer com o tempo

*Por Alexandra Vieira de Almeida

    Encontramos neste livro excepcional de Thiago Scarlata, Quando não olhamos o relógio, ele faz o que quer com o tempo (Multifoco, 2017),o descentramento, o deslocamento do que é usual e medido - o que é alcançado pela via do cômico, do humor puro e do humor negro. O riso fere os ponteiros do tempo. A sua obra é um profundo insight bem elaborado que provoca a quebra das barreiras conceituais. O conceito se afiniza com o tempo. Não é pura e simplesmente uma crítica ao senso comum, mas a algo bem mais arquitetado, o nível dos nossos conceitos fechados dentro de um labirinto de enganos, cuja saída revela uma resposta pronta e acabada e não inusitada, como Thiago Scarlata pensa e prioriza. Há um deslocamento dos conhecimentos previstos, conhecimentos de vários campos do saber, da história, da ciência, da geografia, da matemática etc. Pessoa já radicalizara o original do não-saber a partir de sua metafísica que não pensava em nada. Scarlata propõe: “que não pensar em nada/ é pensar em tudo ao mesmo tempo?”. Não agregando um saber específico, esse saber se traduz como sabedoria que questiona e não apenas uma crítica social e moral que cria outra espécie de sistema de códigos aceitáveis. 

         Nos 37 poemas que compõem esse livro rico e original, vemos no poema que abre o livro, “Colômbia”, a quebra de um paradigma da época. Apesar de já ser conhecida a teoria da rotundidade da Terra, Colombo dá força ao movimento de esfericidade da Terra, desconstruindo o que era mais aclamado e aprovado. Acreditava na possibilidade de o mundo ser esférico: “o mundo estava chato/Então Colombo arredondou”. Isso se deu ao fato das rotas, pois chegando ao mesmo ponto quando contornasse de leste a leste ou de oeste a oeste, o ser humano pode comprovar essa teoria, que se tornou prática. Para Colombo, domar o mundo não era apenas uma conquista geográfica. Ele queria dobrá-lo à sua cosmovisão de mundo que era aberta em um círculo. Maior que a conquista física, era a conquista das ideias, a libertação das amarras, do conhecimento fechado; apesar de se ter o lado físico também, uma “Ciência” se inaugurou: “o mundo era pequeno/não bastava ao homem seus castelos,/um reino ou um império/e os tantos seres que domou”. O ir além, ultrapassar as fronteiras do conhecido, dos conceitos é a tônica máxima desse livro, que percorrerá os outros 36 poemas da obra de Scarlata. Seus poemas quebram com os padrões vigentes, com o senso comum e vai até muito além dos conceitos ao fazer um questionamento, trabalhar com as questões que se expandem em aberto sem demonstrar uma crítica minimamente social ou moralista. A problematização enriquece a bela obra de Thiago: “a noite prossegue/uma noite de outra ordem/a que nunca vemos”.

         Em “Pescaria”, percebemos novamente esse olhar questionador que liberta, provoca uma ruptura com o que a sociedade pensa: Sem julgamento moral, culpa, o poeta diz: “Sem culpa, joga a rede o pescador/Sem culpa cai na rede o peixe”. As coisas ocorrem naturalmente na sua inversão de valores, o que é atingido pelo alto nível irônico e complexificante do poema. Há um paralelismo homem-peixe/peixe-homem, em que ambos se intercambiam, trocam de lugares. Há um questionamento a partir disso e não apenas um julgamento simplesmente moral. Vejamos: “após um dia pescando ao sol/o pescador tá até queimado/já o peixe ou tá frito/ou cozido, ou assado”. Aqui, o questionamento do que se faz socialmente é provocado pelo riso. O grande teórico e filósofo francês do cômico foi Henri Bergson (1859-1941). Ele produziu um livro fantástico sobre o assunto. Em O riso: ensaio sobre a significação da comicidade, ele diz: “Ao contrário, na emoção que nos deixa indiferentes e que se tornará cômica, há uma rigidez que a impede de entrar em relação com o restante da alma na qual ela assenta”. O cômico, provocando esse “enrijecimento para a vida social”, faz com que os defeitos e os vícios não sejam levados a sério, provocando o humor. É dessa forma que Scarlata alcança sua magnitude no seu livro.

Poema da 4ª capa do livro
            Mikhail Bakthin tem um livro que revela a força da cultura popular a partir da visão do mundo carnavalesco, que ele encontra no escritor francês Rabelais. No livro monumental A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais, ele afirma: “O mundo infinito das formas e manifestações do riso opunha-se à cultura oficial, ao tom sério, religioso e feudal da época”. Percebemos em Scarlata a carnavalização da realidade, ao quebrar com os níveis identitários, amalgamando tudo num único lampejo de vida, ao afirmar, no poema “Península”: “me chamam homem/mas todo homem/é também mulher,/uma criança e um velho”. Essa quebra de uma essência do ser num único elemento perfaz a imagem do homem múltiplo e carnavalesco do poeta Scarlata que retoma a figura de nosso eterno Mário de Andrade que configurou a partir da personagem Macunaíma esse ser plural e fantasiado de camadas. Num de seus poemas, Mário de Andrade diz: “Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta,/As sensações renascem de si mesmas sem repouso,/Ôh espelhos, ôh! Pirineus! ôh! caiçaras!/Se um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!”.

         Num dos poemas, o poeta por ora aqui estudado nos revela: “a matemática de meu avô,/vejam só,/até ela me falta/suas certezas cirúrgicas”. Não é num mundo de certezas e redundâncias, que Scarlata vai se pautar. Ele vai buscar o tropel dos cavalos selvagens em sua viagem natural e desvairada. Rompendo a linguagem da decadência, dos escombros: “cumprindo toda a decadência/que escorre no mundo”. Ele busca o momento vivo da linguagem poética, que é tecida por imagens originais, não nomeadas pelo universo insosso da realidade sem a sua poeticidade: “a graxa do sol lambe a casa”. O que não é nomeado, identificado é o sol de seu lirismo, não carcomido pelo tempo, mas que ultrapassa todos os ponteiros do mundo, o relógio mortífero das horas: “e aquela coisa que não sabemos o nome”. Também temos a explosão da melancolia em meio ao riso, alternando a vida com seu paradoxo: “desde que deixei meu quarto/minha mãe vela ali/ a ausência de um menino”. É deste signo feito de ausências que se constrói a linguagem poética da obra em questão. O signo marca uma presença e uma ausência. Thiago coloca em pauta a força das ausências, dos interditos, de lembranças feitas de nuvens aéreas.

Foto de divulgação. @2017

         Em “Turista”, confrontamo-nos com o olhar estrangeiro, que é o lado cômico de nossa natureza, um lado repleto de grandiosidade e reflexão: “o olhar turista/é um olhar/faminto//de cômica violência//retina atônita//lambendo tudo/que o guia/aponta//rindo//pelos//olhos//levam na mala//outra cidade/que não a nossa.” Se em Thiago Scarlata há uma supervalorização do questionamento do cômico e seu valor ricamente social, nos primórdios da Comédia encontramos a concepção aristotélica, em sua Poética, de desvalorização desse gênero literário. Só na modernidade é que o cômico ganha com muita força sua dimensão grandiosa, principalmente, a partir das concepções de Bersgon, com sua teoria do riso, e Freud, com sua ideia dos chistes. Em Aristóteles, na sua Poética, temos: “A comédia, como dissemos, é imitação de pessoas inferiores; não, porém, com relação a todo vício, mas sim por ser o cômico uma espécie de feio. A comicidade, com efeito, é um defeito e uma feiura sem dor nem destruição; um exemplo óbvio é a máscara cômica, feia e contorcida, mas sem expressão de dor”. Em Scarlata, a comicidade é rica em mostrar sua face outra, estrangeira, como um turista que está aprendendo a amar a outra cidade, trazendo sua diferença, seu gosto outro, que requer um olhar perspicaz. O violento, o agressivo eo sério convivem com o lado cômico, revelando sua multiplicidade em não ser apenas um riso fácil, mas estratégico, bem urdido na sua tessitura poética e lírica.

         No poema “Desencanto”, temos a imagem da criança como crítica aos modelos, com a revelação do inusitado, do novo: “só criança entende mágico//a recusa do método//o bom do espanto”. O mundo adulto é visto como redução do mundo mágico e imaginário, com a rigidez dos conceitos fechados, sua cristalização:“enquanto a nós, desgraçados/muito adultos,/não basta a alegria/plena, crua//a nós o truque/é má fé/que hoje vende-se/na rua”. Esta desconfiança dos adultos constrói tudo num sistema organizado sem ter o mundo mágico e curioso do infantil. Esse é o que está na origem, nos primórdios, fonte de rio e riso.


Foto da 4ª capa do livro, "Casa de Passarinho", do próprio autor. Petrópolis/RJ, 2015.

         Para finalizar nosso estudo, podemos perceber também, na obra de Scarlata, doses de humor negro. Como exemplo, temos a seguinte passagem: “após sua leitura este poema/deve ser cremado e distribuído/ no mais próximo mato/[mini morte de métrica poesia]/fermentado, assim, de alguma maneira o devir do parto”. No riquíssimo dicionário online, organizado por Carlos Ceia, “E-Dicionário de Termos Literários”, temos uma concepção de humor negro: “Manifestação de humor desconcertante e com caráter libertário em que elementos macabros, absurdos ou violentos se associam ao cômico. O conceito de humor negro foi introduzido pelo surrealista André Breton...”. Nesse poema de Thiago, encontramos a subversão do cômico a partir de seu elemento oposto, em que, contra toda sentimentalidade e conformismo, encontramos um texto que explode em significados vastos e contraditórios, o que é triste, macabro e sombrio renasce na força potencial do cômico, no seu devir de vida, o parto. Morte e vida se mesclam, formando o paradoxo inaugural da poesia. Portanto, nesse livro original, que quebra com os parâmetros socialmente aceitos, temos um poeta-mestre, que faz de sua poesia o lugar do não-lugar, que ultrapassa o tempo, a memória, com o degredo de todas as concepções fechadas. E é a partir do questionamento do humor, que o poeta aqui em questão revela sua face mais sólida, não deixando a liquidez das águas afundar o que ele tem de mais visceral, que é seu canto poético traduzido em filosofia e reflexão. Um poeta que vai deixar marcas na nossa poesia nacional.




Thiago Scarlata é poeta, músico, escritor e criador/editor do Blog Literário Croqui. Teve poemas traduzidos para o espanhol, publicados em antologias e também nas Revistas Gueto, Escamandro, Mallarmagens, Monolito, Janelas em Rotação, Poesia Brasileira Hoje, Poesia Avulsa, MOTUS, Jornal RelevO, além de blogs literários. Foi finalista do PRÊMIO SESC DE LITERATURA 2016 e JAYME ROLDON 2011, e vencedor do CONCURSO MOTUS – MOVIMENTO LITERÁRIO DIGITAL 2017. É autor do livro de poesia “Quando Não Olhamos o Relógio, Ele Faz o Que Quer Com o Tempo” (Editora Multifoco, 2017).



*Alexandra Vieira de Almeida é Doutora em Literatura Comparada pela UERJ. Também é poeta, contista, cronista, crítica literária e ensaísta. Publicou os primeiros livros de poemas em 2011, pela editora Multifoco: “40 poemas” e “Painel”. “Oferta” é seu terceiro livro de poemas, pela editora Scortecci. Ganhou alguns prêmios literários. Publica suas poesias em revistas, jornais e alternativos por todo o Brasil. Em 2016 publicou o livro “Dormindo no Verbo”, pela Editora Penalux.

Contato: alealmeida76@gmail.com

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

O garimpeiro das formas mágicas, em Do mundo, suas delicadezas

*Por Alexandra Vieira de Almeida

O livro Do mundo, suas delicadezas, de Erre Amaral (Penalux, 2017), é um verdadeiro aprendizado épico-epistolar de formação de uma mulher. A voz feminina, como narradora, conduz um leitor específico, um homem, seu amado mágico. A narradora se dirige a este leitor impossível e não mais existente, criando-se um leitor imaginário, como se uma carta bem elaborada fosse escrita, se dirigindo a ele num tom épico em que vai contar suas vitórias e agruras de uma heroína que é, paradoxalmente, uma anti-heroína. As figuras masculinas conhecidas da tradição tanto bíblica quanto mitológica, comparecem, sendo subvertidas e transformadas pela ótica feminina. O olhar feminino é o tom maior que se dá nesta narrativa de Erre Amaral. Por exemplo, quando a narradora-personagem Pretinha fala de sua prima que se prostitui, sai de casa e volta como filha pródiga ao lar, como não nos lembrarmos do “Filho Pródigo”, do relato da Bíblia? Ou quando, no canto das sereias, relembrando Ulisses, em sua odisseia, a narradora e personagem principal deste livro magnífico, apelidada de “a minha preta do meu amor”, pelo seu amado mágico, escuta os sons externos com seus “ouvidos cegados” que “Ouviram o que quiseram ver,”.

A inversão de valores bíblico-mitológicos só reforça este diálogo intertextual, revelando a originalidade da força poética de uma voz feminina como narradora e personagem principal, que pelo seu lirismo encantador suaviza a miséria, a crueldade e maldade humanas. Temos neste livro uma voz que tanto eufemiza como hiperboliza a realidade, dando um tom mimoso, carinhoso, ou, como o próprio título define, delicado (com diminutivos, dando numa linguagem familiar, íntima), ao real, mas que aponta para uma ironia sagaz, como na imagem da serpente que se enrosca em coisas doces e belas, a questão do mal em sua narrativa nos mostra o lado demoníaco e subterrâneo em toda a humanidade. Do lado angelical da menina-moça Pretinha, temos sua transformação que toma corpo pelo viés erótico, mas também cruel, pelo seu desejo de vingança ao violador Reinaldo de sua inocência erótico-amorosa pelo mágico. Temos uma descrição belíssima e poética da cena de amor entre Pretinha e seu amado mágico, em que o implícito prepondera sem nos ferir com uma pornografia chula, como estamos acostumados a ver na contemporaneidade, mas com um erotismo de alto nível que só os grandes poetas conhecem.

Temos para cada parte do livro escrito (duas) todas as letras minúsculas e, no final, uma vírgula, e não ponto final, dando ideia de continuidade, de que a narrativa vai ter prosseguimento e deve continuar. Encontramos, no entanto, durante todo o corpo da narrativa (com o título dos capítulos-poemas das duas partes) os versos escritos com inicial maiúscula e também terminando sempre com vírgula, isto nos dá ideia de um tom maior, a narradora quer dar grandiosidade ao que se quer narrar no método poético através da característica épica da narrativa, como se o título, também, que termina com vírgula e os capítulos também fizessem parte do poema, parte do constructo poético. Neste livro, convivem gêneros variados, em que o autor subverte a ótica clássica de gêneros estanques. Temos um romance em forma de versos, mas que não deixa de ter seu tom epistolar. Se nos lembrarmos da origem do gênero épico ou narrativo, nos deparamos com as grandes epopeias que eram escritas em formas de versos. A forma mágica de Erre Amaral nos conduz a partir de sua originalidade que produz um verdadeiro monumento literário, mesclando formas e estilos diversos, dando grandiosidade à sua narrativa, As vírgulas constantes criam um rico paradoxo. Além de revelarem uma pausa, um respiro, a uma história de fôlego, pujante; dão a ideia de que as histórias devem ter um motor contínuo, não demonstram algo acabado, suspenso, parado, mas da continuidade de todas as histórias. Uma progressão milimetricamente pensada e elaborada com grandeza por Erre Amaral.

Essa ideia de movimento, progressão através das formas se adequa belamente ao conteúdo, pois as borboletas, sempre presentes no livro nos levam para o mundo do imaginário, que não tem a placidez da estátua, mas a flexibilidade de uma borboleta, como sua própria narrativa, como nos conduz ao belo e flutuante movimento das borboletas, suas metáforas. A imagem para o símbolo da narradora, ágil, arguta, vivaz, flutuante, transformadora e para a própria narrativa, que se mesclam (narradora e narrativa) é a da borboleta. No Dicionário de símbolos, de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant: “Graça e ligeireza, a borboleta é, no Japão, um emblema da mulher; (...) Ligeireza sutil: as borboletas são espíritos viajantes; sua presença anuncia uma visita ou a morte de uma pessoa próxima.” Por outro lado, o avesso das belas borboletas coloridas e benfazejas que percorrem o externo e o interno, o “ventre”, de Pretinha, é a azougada mariposa que aparece para dar tragicidade ao tom épico. O drama também convive nesta mistura de gêneros, que vai desde o épico, o poético, o epistolar e o dramático, numa riqueza de formas excepcional produzida por Erre Amaral, que só pode ser reinventada por quem conhece e tem domínio da técnica escrita como este escritor de Porto Velho (RO).

As diversas formas colhidas pelo autor, na sua conciliação de opostos, mostra a força do olhar, dos olhos. Esta é uma imagem recorrente na narrativa. A imagem poética concilia opostos, como vista pelo grande crítico e poeta Octávio Paz, que dizia que o pesado pode ser o ligeiro. A conciliação da delicadeza com a crueldade neste livro fantástico recria a imagem poética em toda sua força, conduzindo-nos a um olhar inaugural da narradora-personagem Pretinha. No texto “Janela da alma, espelho do mundo”,  Marilena Chauí diz: “Porque cremos que a visão se faz em nós pelo fora e, simultaneamente, se faz de nós para fora, olhar é, ao mesmo tempo, sair de si e trazer o mundo para dentro de si”. Neste sentido, Pretinha carrega um mundo dentro de si que precisa ser projetado para fora, pelo seu olho mágico e encantador, revelando o peso e a leveza da vida. A força dos afetos em Pretinha é imensurável e revela a delicadeza do poético que pode suavizar o mal que adentra os poros da humanidade, do mundo.

Erre Amaral - 2017

Se no início do livro temos as funções bem delimitadas do homem (mais bruta) e da mulher (mais delicada), como de Eliezer e a mãe de Pretinha, Santinha, isso vai se desmanchando ao longo da narrativa a partir do dom pela escrita de Pretinha. Esta é conhecedora da natureza, de suas espécies e minuciosidades. Como uma pessoa letrada ela ganha um Almanaque do seu amado mágico, o livro sobre todas as coisas e, aqui, invenção e realidade se mesclam, pois ela se pauta na sua vida por este livro maravilhoso. Apesar de Pretinha ser descrita por sua fragilidade, ela vai ganhando força e malícia com relação à vida. Ela se torna uma excelente observadora do externo e do interno, percebendo suas minúcias, seus detalhes. A narradora-personagem no início do livro enumera as várias espécies de borboletas e depois se especifica numa, a maldita mariposa. Esta é internalizada na vida das tristes histórias de seus familiares, com o sofrimento, a loucura, a dor. É tamanha a força poética e lírica de Pretinha que o mal pode ser domado, amenizado. A força poética eufemiza o mal, Pretinha busca a utopia, outro mundo, uma utopia de amor num mundo cruel. Mas é, paradoxalmente, pela realística da crueldade, que o mal ganha sua dimensão hiperbólica, sendo domesticada, no entanto, pelo lirismo.

Neste romance-canção, que tem ritmo, musicalidade, o seu lado lírico, encontramos a feiura, a crueldade, no peito de Pretinha, com sua vingança de morte e também pela busca da prostituição. Mas este caminho anti-heróico é dosado pela força redentora e conciliatória no final pelo próprio viés da escrita, pela força do literário. Em certas descrições, a narradora-personagem ressalta a cor da pele, mostrando todas as cores multifacetadas, uma realidade múltipla e complexa como requer Erre Amaral. Temos neste escritor fascinante, um livro dentro de um livro, Pretinha dentro do Almanaque e da vida, um verdadeiro labirinto linguístico de variadas formas. A narradora enumera coisas na horizontal e na vertical, para mostrar a multiplicidade das formas e a quebra do nivelamento artificial de posturas estanques. Pretinha descreve como se estivesse lá, no passado da narrativa, traz o presente para o passado. E Pretinha utiliza justamente os versos começando por letras maiúsculas para dar a grandiosidade do ato de narrar por uma voz feminina.

O poder de invenção da menina, desde a infância, o dom de criar, justifica a narrativa atual. A partir do relato bíblico do tio Zé, cria sua narração adequada a sua vida e pessoa numa parte do livro. Isto revela a capacidade de narrar, a potência de sua narrativa. A linguagem de Pretinha é riquíssima em paradoxos como na imagem da bolha de sabão que é do “...tamaninho imenso do nosso amor,”.  A narrativa carrega caixinhas dentro de caixinhas, e surpresas acontecem a todo tempo, quebrando nossa expectativa. O final é surpreendente, milagroso e epifânico. São histórias dentro de histórias, como caixinhas mágicas. E como não nos lembrarmos do poder do ilusionismo? O livro é uma garrafa de afetos, Erre Amaral garimpa também as formas dos afetos que são construídas pelas afinidades, como entre o cego Omerinho e Pretinha a partir das semelhanças pela invenção de histórias e pelos desafetos, como entre ela e Reinaldo, o seu violador, e o violento Ferreira que chicoteia um negro livre até a morte.

Erre Amaral é um garimpeiro de formas e de símbolos, produzindo uma obra do tamanho do mundo e suas estranhas “delicadezas”. Mescla o sofrimento com alegrias, a dureza com a leveza, como a forma da imagem requer. A miudeza, a minúcia, é sua delicadeza. A narrativa produz uma circularidade, como o próprio ritmo da poesia. O seu olhar é enigmático. “Quem mais olha menos vê,” como dito pelo mágico revela a agilidade de sua narrativa, que misturando diálogos como parte da narração não segue o padrão tradicional do discurso direto dramático. A sua narrativa bem revela o dom do mágico, o de fazer desaparecer e aparecer a caixa. São inúmeras caixas que se abrem em sua narrativa. O diálogo entre Pretinha e o mágico no abrir-se para o sexo é uma das partes mais belas do livro. Como não nos lembrarmos do erotismo do “Cântico dos Cânticos”, do rei Salomão? Não é algo explícito, aberto e agressivo que revela um contraste com o recato anterior no livro. É algo extremamente lírico, belo e poético. O sexo serve como amadurecimento de Pretinha, o passar do tempo, a transformação de menina-moça em mulher.

A força da ambiguidade que carrega sua narrativa é ímpar. Da crueldade à delicadeza, Erre Amaral consegue ir de um extremo a outro com maestria. Mistura também o sagrado e o profano, como na imagem da Santa Pretinha após a prostituição e no Almanaque profano, espécie de bíblia que contém o segredo de todas as coisas. A riqueza da urdidura da ordem e do restabelecimento (redenção) metaforizada no trabalho de tecelagem da mãe de Pretinha que impõe uma ordem ao caos da menina com a figura das três fiandeiras que remontam ao mito grego. O livre-arbítrio que fere o destino das fiandeiras e impõe uma ordem outra por Pretinha que controla sua própria vida-sina. É a escrita o dom maior que desconstrói o destino imposto. Pretinha se vê na “inteireza de sua imperfeição”. No espelho que ela ganhou do mágico, um dos seus presentes, como o Almanaque, ela se mira e percebe a multiplicidade de suas faces. A relação com as cores branca e preta, na narrativa, é outro recurso que ocorre, mostrando os seus inúmeros entrelaçamentos. Temos, assim, nesta narrativa de Erre Amaral o garimpo certeiro de pedras preciosas e mágicas com um livro que vai fincar raízes na história de nossa literatura.


“Do mundo, suas delicadezas,”, romance (2017). Autor: Erre Amaral. Editora Penalux, 272 págs. (18x26), R$ 50,00.
Disponível em:
https://www.editorapenalux.com.br/loja/product_info.php?products_id=548



Erre Amaral nasceu em Porto Velho (RO) em 1965, é escritor, poeta e ensaísta. Autor de Do mundo, suas delicadezas, (romance, Editora Penalux, 2017), 54 [+ uma] mulheres do baralho (poemas, Editora Cousa, 2015) Contos extraviados (contos, Butecanis Editora Cabocla, 2015), Uma Denise (romance, Editora Cousa, 2014), Le mot juste (romance, Orobó Edições, 2011) e Paul Ricoeur e as faces da ideologia (ensaio, Editora da UFG, 2008). Assinou a coluna ‘O mal-entendido universal’ na Germina – Revista de Literatura e Arte, e assina a coluna ‘Memorabilia’ na Revista Pausa. Editor de Palávoraz – Literatura e Afins. Coordenou o Projeto de Cultura Café Literário em Diamantina (MG). Curador do Projeto Caravana Rolidey – Literatura na Estrada. Despacha na blogue literário piERREmenardiando. Doutor em Educação (UFG) e professor de graduação e pós-graduação do Curso de Filosofia da UFT, em Palmas (TO).


Alexandra Vieira de Almeida é Doutora em Literatura Comparada pela UERJ. Também é poeta, contista, cronista, crítica literária e ensaísta. Publicou os primeiros livros de poemas em 2011, pela editora Multifoco: “40 poemas” e “Painel”. “Oferta” é seu terceiro livro de poemas, pela editora Scortecci. Ganhou alguns prêmios literários. Publica suas poesias em revistas, jornais e alternativos por todo o Brasil. Em 2016 publicou o livro “Dormindo no Verbo”, pela Editora Penalux.
Contato: alealmeida76@gmail.com