segunda-feira, 28 de maio de 2018

Entrevista com Rique Ferrári - Rocketman

*Por Thiago Scarlata

“No meu mundo, é isso. Sozinho, numa esquina, olhando o mundo, eu tenho o maior leque de possibilidades. Eu sou o rei de meu reino, e não escravo dos afazeres cotidianos.”



Rique Ferrári é sommelier, professor e colecionador de antiguidades. Escreve poesias desde sempre, mas só agora lançou seu livro Rocket Man (Patuá, 2017), um projeto desenvolvido em viagens pela América do Sul, e todo ilustrado por grandes tatuadores brasileiros.


CROQUI – Você disse que o título do livro foi inspirado na canção homônima do Elton John. Conte-nos um pouco sobre essa escolha e como o tema dialoga com o livro.
RIQUE FERRÁRI - Dizem, e não são poucos, que o mal do século é a solidão.
No entanto, a enigmática e poderosa música é o contraponto disso.
É sobre um sujeito que vai até o espaço, no conceito máximo de solidão, para então perceber que aquele é seu lugar,
e não numa família-casa-trabalho-vida padrão.
Em suma, a canção é sobre algo em que acredito: é necessário se distanciar de tudo para, mais que se encontrar, fazer surgir o sumo de sua capacidade.
Há um poema de Gregory Corso, que diz:
Ficar
Parado
Em
Uma
Esquina
Esperando
Por
Ninguém
É poder
No meu mundo, é isso. Sozinho, numa esquina, olhando o mundo, eu tenho o maior leque de possibilidades. Eu sou o rei de meu reino, e não escravo dos afazeres cotidianos.
Posso decidir ir a um bar, correr pelas ruas, entrar num primeiro avião com destino indefinido. Algo, inclusive, que está nos meus planos para um próximo livro.
Isso é poder.
E isso permite criar projetos de total entrega, como fiz em meu livro.
E, sobre o livro: essa filosofia surge nos três capítulos:
seja nos poemas de caráter e intensidade diferentes em cada país, porque eu estava entregue a cada cultura;
seja na exaltação do cotidiano, buscando magia no mundano; que quando não existe, dane-se, nós criamos;
seja no longo monólogo final - que traz uma intensidade quase lunática.
Por fim, quero dizer que o projeto trouxe-me a mim; indubitavelmente.
Como na canção Rocket Man; fiquei liberto das amarras: sejam sociais, sejam, também literárias.

Capa: Marcelo Dalbosco @2017

CROQUI – Você viajou pela América Latina para escrever o livro. Quanto tempo isso levou, por quais países passou e de que maneira essas diferentes culturas afetaram sua escrita?
RIQUE FERRÁRI -
Entre idas e vindas o processo durou quase dois anos. Passei por Argentina, Uruguai, Chile, Peru, Bolívia e Colômbia, exatamente nessa ordem.
Nesse período também fiquei alguns dias na Amazônia, acampado com pescadores.
O mais difícil, sem dúvidas, foi encontrar formas de mergulhar nas culturas. Não basta, por exemplo, ir ao Peru e passar alguns dias em Lima.
É necessário desvendar o obtuso; como o fiz nas tribos remanescentes da cultura Inca; ficar la com eles, colher tubérculos com as anciãs cozinheiras.
O objetivo era transformar toda a beleza sensorial de cada lugar em poesia. Por isso, cada país trouxe poemas de estilos e intensidades distintas.
Em fato, eu apenas fui um tradutor de toda a riqueza sensorial típica.
Porém admito, foi um risco literário assumido: Rocketman propositalmente não tem um estilo específico; é plural, ilimitado.


CROQUI – Como é que foi para você, na posição de turista, esse trabalho quase antropológico? É possível não cair em apropriações e distorções e transformar em poesia coisas tão diferentes do nosso cotidiano sem cometer etnocentrismos?
RIQUE FERRÁRI - Muito importante falar sobre isso.
Há tempos sou admirador da América do sul, coleciono arte diversa do continente, principalmente pré-colombiana.
Ter essa base foi muito importante para escrever o capítulo.
No mais, de fato, há muitas armadilhas étnicas em todos os países.
Numa explicação simplória, o melhor a fazer é limpar da fronte tudo que é turístico.
Exemplo: Argentina, de fato, não é tango.
Mas tango é sobre sofrimento, desilusão. E então começamos a ligar pontos e chegamos, por exemplo, ao belíssimo símbolo da tristeza: o cemitério de Recoleta.
A perceber: há algo nos Argentinos em saber transformar a dor, o fim, em beleza. E isso aparece até na forma como veem futebol e elaboram sua bela gastronomia.
Penso que esse tipo de conexão acontece quando você se permite, de fato, viver a vida local: comprar o pão na esquina, ir ao mercado público, etc.
Basta um pouco de sensibilidade para deixar aflorar as percepções.
No entanto penso que todos nós, poetas, costumamos fazer esse tipo de leitura quando viajamos. Talvez algo intrínseco, nosso selo.
Buscamos a magia; e previamente sabemos que ela não costuma estar no óbvio.
No mais, havia um processo também: em todos os lugares, durante os três primeiros dias eu não escrevia; apenas labutava em busca da identidade - a verdade por trás da publicidade local.
Só então o mergulho era possível.


CROQUI – Em 2015 você passou por problemas sérios de saúde. Quando retornou a rotina, no que essa experiência afetou a sua literatura, e, a poesia foi importante para você nessa fase da sua vida?
RIQUE FERRÁRI - Esse projeto surgiu assim que recuperei minha saúde. O processo de escrita do livro também foi o processo do meu ressurgimento; por isso sua importância para mim.
E por isso a exaltação da vida, tão presente nessa obra.
Difícil colocar aqui, textualmente, a dimensão de tudo isso.
Mas sem dúvidas, a ideia de hipervalorização do “eu”, do “humano”, vem disso.
Mil perdões pelo clichê, mas precisa ser dito:
se você tem saúde, você é imbatível.


CROQUI – As ilustrações presentes no livro realmente impressionam positivamente. Como foram feitas essas escolhas e quem ou que pessoas estão por de trás delas?
RIQUE FERRÁRI - Essa foi a melhor parte.
É uma honra falar sobre isso.
Sendo bem direto: a arte mais badalada do momento é a tatuagem. E sim, tatuagem é arte, basta olhar as obras desses profissionais; os quais muitos surgiram das artes plásticas.
Aliás, muitos deles são famosíssimos; com fila de espera de dois anos, 200 mil seguidores no Instagram; profissionais como Victor Octaviano e Victor Montaghini, entre outros.
Mas digo que é a melhor parte também devido ao estímulo recíproco: nenhum tatuador cobrou por fazer sua ilustração para o livro.
Veja bem, pense em nosso país, é incrível e raro que profissionais renomados, sem tempo livre, aceitem participar de um projeto desses sem quaisquer contrapartidas. Devemos aplaudir.
Sobre o projeto: a ideia de fazer esse casamento se deu no intuito de buscar novos públicos para a poesia e, sim, valorização artística desses profissionais.
Quero dizer que me incomoda muito os poetas de sarau. Aquele mundinho fechado e a cena repetitiva:
- poetas lendo seus poemas para amigos poetas - e depois reclamando nas redes sociais que o público em geral não lê poesia.
Poxa. Que saiam das cavernas, que dialoguem com outras artes, que busquem novos públicos, como há décadas tanto se fez, por exemplo, através da música.
Esse é o movimento central de meu livro.
Por isso, além dos tatuadores, há uma parceria com atores gaúchos atuando alguns poemas do livro, que podem ser visto em um site exclusivo dessa parceria: riqueferrari.com.br
O que quero deixar de impressão na comunidade literária é isso: avante! Vamos ganhar campo. Muita gente fora dos saraus gosta de poesia, apenas precisam de estímulo.

Despedida da jovem mocinha / Victor Octaviano @2017


CROQUI – De que maneira as ilustrações dialogam com os poemas?
RIQUE FERRÁRI - Após o livro ficar pronto, defini os poemas que deveriam ser ilustrados. E busquei o casamento perfeito. 
Cada poema, com cada tatuador, combinando estilos.
Por isso um poema mais nostálgico, com as aquarelas de Victor Octaviano
Para um poema mais alegre, ingênuo, busquei a arte infantil de Dani Bianco.
E por aí vai.
Na apresentação do livro, logo nas primeiras paginas, citei o Instagram de todos os tatuadores, para que o leitor pudesse admirar esses co-autores da obra, que tanto me encantam.


CROQUI – Fale um pouco sobre cada capítulo e o que entre eles se difere e/ou há de conexão.
RIQUE FERRÁRI - Foi organizado de forma temporal. A ideia inicial era escrever um livro baseado no mergulho pela América do Sul. No entanto, quando voltei da Colômbia, último destino, estava tão estimulado que era impossível não escrever. E assim o fiz, sobre o cotidiano, sobre pequenices que me eram tão queridas. Na sequência cheguei ao poema que dá nome ao livro.
Era para ser apenas um poema desse segundo capítulo, mas tanto gostei de escrever que não consegui parar e, enfim, cresceu mais que o imaginado.
No fim é isso; um livro orgânico, que foi crescendo por um profundo amor à arte, às culturas, e, claro, à vida.


CROQUI – Quais são as suas influências literárias mais importantes e o que está lendo atualmente?
RIQUE FERRÁRI - Há algum tempo leio apenas poesia contemporânea estrangeira. Nada contra a literatura nacional, que é de altíssimo nível. Mas essa é também uma forma de pesquisar culturas distantes.
Penso que hás duas formas incríveis de conhecer uma cultura: através da literatura e da gastronomia. À distância, apenas uma é possível.
Ler um poeta de um país distante é uma forma de entender o povo e também estimular raciocínios não comuns em nossa sociedade.
Agora, por exemplo, estou lendo um livro chamado Ovelha Negra, uma coletânea da poesia Escocesa do século XX. É incrível.

Meu velho amigo cego / Victor Octaviano @2017


CROQUI – Está trabalhando em um novo livro? Caso sim, o que já nos pode adiantar?
RIQUE FERRÁRI - Estou sim, mas sem pressa. O processo do Rocketman foi muito desgastante. Escrever é um prazer, mas depois a revisão, edição, etc., é muito cansativo. O novo livro deve seguir o estilo já apresentado. Valorização cultural, busca de novos públicos e, claro, tentar trazer algum frescor.


CROQUI – O que é literatura para você?
RIQUE FERRÁRI - É um remédio. Claro que numa visão macro é muito mais que isso.
Mas em meu minúsculo universo, é um ansiolítico e também um estimulante.
Então minha saúde é dependente dessa arte; por isso há um caráter sacro e mágico na forma como leio, escrevo e divulgo a literatura.



*Thiago Scarlata (1989) é poeta, músico, escritor e editor do Blog Literário Croqui. Teve poemas traduzidos para o espanhol, publicados em antologias e também nas Revistas Gueto, Enfermaria 6, Escamandro, Mallarmagens, Monolito, Avenida Sul, Incomunidade, Janelas em Rotação, Poesia Brasileira Hoje, O poema do poeta, Poesia Avulsa, Literatura&Fechadura, Poesia Primata, Vero o Poema, Carlos Zemek, MOTUS, Jornal Correio Braziliense, Jornal RelevO, além de blogs literários. Foi finalista do PRÊMIO SESC DE LITERATURA 2016, vencedor do CONCURSO MOTUS – MOVIMENTO LITERÁRIO DIGITAL 2017 e da SELEÇÃO PÚBLICA PARA PUBLICAÇÃO DA EDITORA URUTAU 2018. É autor do livro de poesia “Quando Não Olhamos o Relógio, Ele Faz o Que Quer Com o Tempo” (Editora Multifoco, 2017).
E-mail: scarlatatts@gmail.com / croquiliteratura@gmail.com


quinta-feira, 24 de maio de 2018

Nuvens são rios que voam

Arte: Leonardo Mathias @2017
*Por Thiago Scarlata

Assim como os poemas, nenhuma nuvem é igual a outra. Da mesma forma, cada um desenha na nuvem, conforme a imaginação, a imagem que seu espírito bem associar. Num paralelo freudiano, talvez as nuvens sejam como os sonhos. Atribuímos a elas e suas formas uma projeção de nós mesmos ou de tudo o que nos afeta… Quem não se lembra da imagem (esteriotipada, é verdade) do psiquiatra mostrando ao paciente diversos desenhos meio obscuros e perguntando: “o que você vê nessa imagem?”?

Para além disso, outro viés interessante é o de que nuvens, também, são como lembranças: se dilatam, se deformam, tomam outros caminhos e assumem outros símbolos e significados conforme o tempo reage sobre elas. Mesmo que as cenas e momentos que guardamos permaneçam aparentemente intactas em nossa memória, a realidade é outra, como as nuvens, as lembranças sempre serão baseadas em escolhas feitas pelo nosso subconsciente, que nada mais é do que uma substância que permanece após diversas filtragens. O que fica, é o que julgamos importante. Sejam os episódios bons ou ruins. Vamos mudando. Somos como as nuvens. Escrevemos poemas, que por sua vez também vão se modificando, enfim, identidade é algo que talvez não seja um ponto de chegada, mas um conceito mais aberto, sobretudo no que se refere ao fazer artístico.

Como me disse a própria Carla Andrade, Caligrafia das Nuvens (Patuá, 2017) é um livro composto de lembranças. Lembranças de infância, ainda em Belo Horizonte – sua cidade natal -, de Brasília, que impelidas por seu eu lírico se fazem presente e o que há de intransitório e de presença nesses trajetos que a vida inscreve, e, como disse Fernando Pessoa, “quem muda de casa, muda de país”.

Caligrafia das Nuvens é um livro bem eclético. Há lirismo, humor e erotismo nele. Entretanto, Carla, que parece ter a caligrafia já bem treinada e definida para poesia, não faz da obra uma ciranda disforme e aleatória. Cada poema foi competentemente posto numa posição ideal, o que deu ao livro um ritmo instigante, que não cansa o leitor, ao contrário, a poeta escalou os poemas numa formação que não me fez em nenhum momento ter vontade de colocar o marca-página, interrompendo e adiando sua leitura para um outro momento.

Com uma linguagem guiada pela coloquialidade e com poemas, em sua maioria, de tiro mais curto, há também na obra, conteúdos com uma atmosfera mais onírica, o que faz uma interessante ligação com a rede sensorial e memorial que a própria autora sugeriu e construiu. Durante a leitura de alguns poemas, por vezes não sabemos se são memórias do mundo real ou de algum sonho. Ou seja, todos esses elementos, (aparentemente fragmentos distintos entre si): saudosismo, amor, riso, pecado, afeto, banal, ausência, revolta, delicadeza, peso, instinto e delírio, sempre fazem parte de uma coisa só. Essa coisa, aliás, somos nós. Nossos poemas e nossas nuvens imaginadas. Carla Andrade é uma poeta muito bem resolvida. Sabe o que, quando e como falar, fazendo de Caligrafia das Nuvens, leitura mais do que aconselhável pra quem gosta de poesia. Melhor prova disso são os poemas que selecionei e que em seguida compartilho com vocês:


Moinho

Se amanhecer:
o prato esmaltado
e o sangue depenado
em cova rasa,
a galinha mais lenta.

As linguiças enforcadas
expostas por seus crimes
no estandarte da cozinha,
o porco mais gordo.

Lambança do chiqueiro,
a lavagem – cevada de
bicho de pé, berne, barbeiro,
sanguessuga.

A descontinuidade da vida
resolvida no erotismo do moinho,
no gozo exterminador do moedor.

A violência da roça.
É disso que preciso.


Terra de Gigantes

Acostumada
a olhar formigas.
Hoje
elas olham
para mim.
Me reduzi
A
Gente
Dita
Grande.


Arqueologia

Só quero agradecer
por entrar em mim
e tirar aquele homem
fossilizado em minha carne
há 15 anos, 16 anos.


We can do it

na garupa de um rinoceronte branco
escorrego dedos na sua bunda
mais ma vez a mordo
como se fosse achar
um bicho de goiaba.

Sua bundinha
nas minhas mãos
um corvo encolhido.

Cravo meus dedos
enguiçados de desejo:
áspero é sempre meu rodopio
no meu conta-gotas

Espreguiço minha língua
no contorno de sua vir(ilha)
à espera do rio Tejo.

Flanar em várias encarnações,
e na janela de Botero,
fumar entre uma fresta
e festa de penetra.

Assim como nossos monólogos,
você não me deixa
colocar o dedo onde devo...






Carla Andrade Bonifácio Gomes é de Belo Horizonte de 77. Está em Brasília desde 2000, e atua como jornalista e poeta na capital. Tem quatro livros publicados: Caligrafia das Nuvens (Patuá, 2017), Conjugação de Pingos de Chuva (LGE), Artesanato de Perguntas (7Letras) e Voltagem (7letras). Inquieta e arteira, morou um tempo na Califórnia, onde tentou aprender até a surfar e falar inglês fluente. Herdou um grande talento da tradicional família mineira: a arte de boiar e atravessar pinguelas.



*Thiago Scarlata (1989) é poeta, músico, escritor e editor do Blog Literário Croqui. Teve poemas traduzidos para o espanhol, publicados em antologias e também nas Revistas Gueto, Enfermaria 6, Escamandro, Mallarmagens, Monolito, Avenida Sul, Incomunidade, Janelas em Rotação, Poesia Brasileira Hoje, O poema do poeta, Poesia Avulsa, Literatura&Fechadura, Poesia Primata, Vero o Poema, Carlos Zemek, MOTUS, Jornal Correio Braziliense, Jornal RelevO, além de blogs literários. Foi finalista do PRÊMIO SESC DE LITERATURA 2016, vencedor do CONCURSO MOTUS – MOVIMENTO LITERÁRIO DIGITAL 2017 e da SELEÇÃO PÚBLICA PARA PUBLICAÇÃO DA EDITORA URUTAU 2018. É autor do livro de poesia “Quando Não Olhamos o Relógio, Ele Faz o Que Quer Com o Tempo” (Editora Multifoco, 2017).
E-mail: scarlatatts@gmail.com / croquiliteratura@gmail.com

domingo, 13 de maio de 2018

Spoilers - Diego Grando


*Por Thiago Scarlata


A coloquialidade de Diego Grando é seu instrumento para a formatação de uma obra (desde Desencantado Carrossel e passando por Sétima do Singular) que ocorre num constante agora. O cotidiano pulsante das cidades, com seus ascensoristas, caixas de supermercado, a operadora de telemarketing, o íntimo máximo do banheiro de casa - e todas as sutilezas sussurradas aparentemente aleatórias que deixamos escorrer pelo ralo -, o não-fumante, todos esses pequenos rituais como o de acender um fósforo ou mesmo o ato de escrever um poema (e o que isso implica) é alvo de Grando.
Então, após um hiato de quase 10 anos, nos chega Spoilers (Confraria do Vento, 2018), um livro em que fica evidente um mergulho mais profundo do autor em relação às suas últimas publicações. Aqui, temos o melhor de Grando (pontos já mencionados no parágrafo anterior) aliado a um novo ingrediente: o tempo.
Nessa nova obra, há tanto uma exploração da memória, quanto uma antiga marca de Grando: o trato com elementos da contemporaneidade. Em relação a este último apontamento, se compararmos seu penúltimo livro (Sétima do Singular, Não Editora, 2009) com Spoilers, teremos o retrato de duas épocas, o que é um ponto interessantíssimo para quem acompana a trajetória do escritor, doando-nos, também, sua forte substância retratista.
O livro é dividido em duas partes: "Passado Pressentido" e "Presente Prorrogado". O primeiro, mais ligado, naturalmente, à memórias, sejam familiares, de infância, de lugares, enfim, uma ode revisitada, uma rememoração poética do hoje homem Diego Grando, que nos brinda com sua bagagem de vida e de arte - e o poeta sabe como poucos mesclá-las e traduzi-las ao papel. O segundo, é um almanaque da pós-modernidade. Como já dito, uma das matérias de Grando é o hoje. O textão da rede social, a função "soneca" do smarthphone, a praça de alimentação de um shopping, também um fóssil, uma lâmpada e um mclance feliz. Entretando, cabe alertar: não esperem descrições humoradas, literalidades e associações de cunho meramente crônico. Em Grando nada é atoa. Há questionamento, sarcasmo e crítica. O poeta faz o que se espera dos grandes: sugere.
Melhor do que minhas palavras para exemplificar, são os dois poemas do livro que selecionei e que agora compartilho abaixo, e, em seguida, uma entrevista que fiz com o autor:


MEMORABIBLIA III


Afora os que estavam nos dedos
pouco soubera dos números
e por que se contasse com eles
a avó que viveu menos.


As letras que - sublinhadas
com a ponta da unha - se liam
trazendo tendência ao tédio
ficaram pra tias, pras tias.


Viver foi, afinal, ir vivendo
sem fórmulas ou aforismos.


A avó que viveu menos
terminou - como
disseram - confusa
mas isso não vinha ao caso.


Vivem menos e casou
com o avô que viveu mais:
inversamente proporcionais
na mesma gaveta do cemitério.


                   ***



PRAÇA DE ALIMENTAÇÃO


A vida - esse burrito de argamassa
que a gente vem comer com fome e pressa
e para digerir leva um bocado


O tempo - esse temaki de água-viva
um cone algodoado feito luva
que a mão humana nunca é que se livra


O ser - essa salada contingente
de folhas frutas bolos
chochos de esperanã


A lógica - esse hambúrguer carbonato
de sódio lítio glúten glutamato
e uma porção pequena de poliestireno


A moral - essa pasta nada à moda
escalopes ao molho madeira e talheres
pretos plásticos embalados


A razão - essa torre de chopp
esse xarope utópico
gaseificado


A ética - esse suco descartável
polpa de água batida
em copo ecológico certificado


A fé - esse café de águas passadas
por cápsulas viçosas de alumínio
aos pingos espartanos de aspartame


A metafísica - essa paleta intraduzível
palito enobrecido
entorpecido de recheio


O cosmo - esse amontoado de pequenos sóis
com tampo de granito onde orbitamos
acenando ansiosos para que nos vejam


CROQUI – Conte-nos um pouco sobre como foi escrever um livro como parte de uma tese. Como isso se deu?
DIEGO GRANDO - Do ponto de vista acadêmico – ou burocrático, como preferir –, dá pra dizer que foi tranquilo, uma vez que, nas duas universidades mais importantes de Porto Alegre (a UFRGS e a PUCRS), já existe um espaço legitimado para a Escrita Criativa, ou seja, para a produção de dissertações e teses que se estruturem a partir de uma produção ficcional/poética. Eu, inclusive, já tinha passado por isso: meu livro anterior, Sétima do singular (Não Editora, 2012), tinha sido parte da minha dissertação de mestrado, na PUCRS. Então, não era uma novidade pra mim propor um trabalho desse tipo – afora, claro, a novidade inevitável que é passar por todo o processo de fazer uma tese, o tempo envolvido, as exigências (pessoais e institucionais), essas coisas – e também não era uma novidade na UFRGS, muito embora meu trabalho tenha sido o primeiro em poesia – e, evidentemente, eu era um corpo estranho entre meus colegas, afinal, era sempre embaraçoso ter que responder à pergunta: sobre que é o teu trabalho?
As questões que podem surgir daí, me parece, giram em torno do porquê e do como isso funciona, do ponto de vista prático: tive aulas de criação poética? O que se ensina/aprende nesse tipo de formação? Além dos poemas, o que mais constitui o trabalho? Como se avalia esse tipo de trabalho?
Pra não me alongar tanto: cursei as disciplinas do currículo tradicional do Pós em Letras da UFRGS, entre elas havia uma (mas puramente teórica) sobre processos de criação literária, e uma, em formato mezzo-oficina, de poesia brasileira. Ou seja: a criação poética era responsabilidade minha, não havia ninguém solicitando que eu escrevesse tal ou tal coisa, ou de tal ou tal jeito. A Márcia Ivana, minha orientadora, sempre me deixou muito livre pra fazer as coisas do meu jeito, isto é, não só escrever os poemas, mas dar corpo ao restante da tese. No caso, fiz uma pesquisa extensa, bem mais extensa do que eu tinha planejado inicialmente, sobre a presença do tempo na reflexão sobre a criação literária, partindo lá das Artes Poéticas e Retóricas da Antiguidade, passando por prefácios, cartas, depoimentos de poetas sobre o próprio processo criativo e chegando na Crítica Genética. Eu analisei, daí, a função – ou melhor, as funções, foi o que vim a descobrir e sistematizar – do tempo na criação poética. Além disso, fiz dois ensaios sobre poetas contemporâneos (Marco de Menezes e Angélica Freitas) e, ao final, uma espécie de depoimento sobre o processo de escrita do livro, e do livro dentro da tese, ou seja, mais ou menos o que estou fazendo aqui.
O legal disso tudo é que o orientador e a banca atuam, mais do que como avaliadores, como “primeiros leitores” da obra, isto é, eu tive a grande chance de ter, além da Márcia Ivana, minha orientadora, o Altair Martins, o Antônio Sanseverino e o Alckmar Santos lendo e comentando meus poemas, fazendo sugestões, etc. Nesse sentido, a entrega da tese é o final de uma coisa, mas não de tudo. Aí, depois da defesa vem o trabalho normal (e difícil) de publicação: o livro se descola da tese e vira um volume isolado, tem que achar editora, revisar e mudar mais umas tantas vezes, até que ele fique pronto. Como qualquer livro.

CROQUI – Sabemos que não gosta muito de falar sobre uma “ideia geral” da obra, pois, nas suas palavras, “o grande barato está em como cada um vai interpretar e lidar com o livro”. Ainda assim, poderia nos ceder alguns pontos de norteio sobre Spoilers ?
DIEGO GRANDO - Bom, falando sobre o que me parece mais óbvio – partindo do título e da divisão do livro em duas partes, “Passado pressentido” e “Presente prorrogado” –, o núcleo está na questão do tempo (não por acaso, é o tópico que abordei, só que de outro ângulo, na parte teórica da tese). Minha vontade não era falar do tempo, mas com o tempo, colocar as coisas em função do tempo, apesar de eu não saber explicar muito bem o que isso quer dizer. Enfim, tomando essa premissa como verdadeira, o tempo passa a se desdobrar em várias formas: memória, família, envelhecimento, o aqui e o agora, futuro, morte. Tanto é que eu passei a ler coisas bem variadas sobre tempo, da filosofia à física, Santo Agostinho, Stephen Hawking, Ricœur, Norbert Elias, Étienne Klein, Heidegger, Agamben, por aí vai, e acho que isso acabou se refletindo no livro.
Nessa de falar com o tempo, foi ficando mais evidente pra mim a necessidade de trabalhar com poemas um pouco mais longos (em relação ao que eu já fazia), de buscar nessa dilatação do tempo pela linguagem algo das experiências que eu queria provocar/produzir. Paralelamente a isso, não me interessava puramente “olhar para trás”, eu queria era falar do presente, então, de certa maneira, eu precisava arrancar o passado do lugar dele e trazê-lo para o agora. Aí fui me dando conta que, pra fazer o passado virar presente, seria preciso também fazer o movimento inverso, uma espécie de contrapeso: transformar o presente numa forma de passado. Assim, tudo ganharia essa cara mais opaca do presente, que é o fato de nunca sabermos ao certo o que está (nos) acontecendo, essa impossibilidade de distinguir relações de causa e consequência. Tudo meio que vira spoiler, mas de uma narrativa que é, no fim das contas, desconhecida, inacessível. O presente é puro spoiler, mesmo que a gente só venha a perceber depois, quando já deixou de ser presente.

CROQUI – Porque um intervalo tão espaçado entre seus dois últimos livros? Isso está ligado a novas práticas no seu processo de maturação da escrita, ou foi algo mais ligado à correria do cotidiano?
DIEGO GRANDO - São vários motivos, e os dois apresentados na pergunta são verdadeiros. Começando pelo primeiro: escrever sempre foi algo demorado pra mim. Não sou alguém inspirado, intuitivo, iluminado, não tiro poemas da cartola. Meu primeiro livro, Desencantado carrossel, com toda aquela cara de tudo-o-que-eu-fiz-até-aqui que acontece muito num primeiro livro, levou seis anos pra ser escrito. Aliás, quando ele saiu, em 2008, eu já estava com o segundo encaminhado, porque fazia parte da minha dissertação de mestrado, defendida no mesmo 2008. Mas aí fui reescrevendo, mudei poemas, troquei o título, e o Sétima do singular saiu só em 2012, depois que eu já tinha publicado aquele livretinho, 25 Rua do Templo / Palavra Paris, em 2010, escrito basicamente no ano anterior. Ou seja, não há linearidade entre o que escrevi e publiquei. Dá pra entender por que fui me debruçar sobre o tempo? Nesse sentido, Spoilers vem colocar uma certa ordem nessa bagunça (mas é uma bagunça saudável, e a ordem é algo bem fácil de se perder).
Outro fator pra essa distância temporal é o fato de que eu já não tinha a pressa dos anteriores: do primeiro, porque é o primeiro, a existência enquanto autor está meio condicionada a ele; do segundo, porque parecia preciso confirmar aquela existência. A partir daí, passou o desejo de publicar. Não o desejo, mas a urgência, e acho que fazer o Spoilers foi viver isso, e de vários ângulos.
Mas tem o lado da correria também, e de tudo o que vem com ela. O fato é que, de 2011 pra cá, passei a viver uma exposição que era então desconhecida pra mim, por vários motivos. Primeiro, comecei a dar aula em cursinho, uma rede grande, dessas que se dá aula com microfone e a turma na verdade é uma grande plateia de cento e tantas, duzentas pessoas. Fiz isso até 2015. Além disso, a publicação do Sétima do singular, em 2012, me deu uma certa projeção por aqui, e logo na sequência, e muito em função do livro, eu comecei a fazer rádio, sem nenhuma ideia de como se fazia isso: tive um programa na Mínima, uma rádio web, o Mosaico Magazine, por uns sete meses, junto com um amigo, o Fábio D’Ávila. Era sobre literatura, mas não só. Depois, passei a participar do programa da Katia Suman (primeiro na rádio Ipanema, depois na Rádio Elétrica, onde continuo até hoje), falando semanalmente sobre qualquer coisa (embora a discussão sobre política de drogas e regulamentação da maconha seja a que mais me mobilize), é um programa de conversa chamado Talk Radio. E, logo mais, comecei a substituir a Claudia Tajes no Sarau Elétrico, até que ela saiu (e eu entrei) em definitivo, ali pelo final de 2013. Em resumo: descobri uma faceta pública que eu não tinha e não imaginava pra mim, e isso me impactou muito. Fui me dando conta de que, por motivos diversos, eu tava falando em microfone de segunda a sexta (às vezes com reprises aos sábados), e aí o que se tornou urgente foi o silêncio, foi sair de cena o máximo possível em todo o resto do tempo.
É claro que isso tudo não está diretamente no livro, mas talvez apareça de alguma forma. E se não aparecer, pouco importa, o fato é que condicionou boa parte dele.

CROQUI – Sabemos que você é um grande agitador cultural em Porto Alegre, frequentando e organizando saraus, ministrando cursos literários, etc. Fale-nos um pouco sobre seus projetos para além do livro em si.
DIEGO GRANDO - Essa é boa! Não consigo me ver no rótulo de “agitador cultural”. Claro, faço o Sarau Elétrico, que tem história e reconhecimento (começou em 1999) e é um evento semanal, além de participar, sempre que me convidam, de eventos literários. Mas agitador cultural eu acho que não sou, essas coisas simplesmente vão acontecendo, não sei lidar muito bem com elas.
O fato é que eu também sou professor, e cada vez mais tenho entrado nessa militância de ensinar literatura, dar oficinas de poesia, fazer essa mediação. Hoje estou na PUCRS, faço um pós-doutorado, tenho um projeto de pesquisa sobre ensino de poesia e criação literária, tenho um grupo de estudos, o Reservatório de Experiências Poéticas, estou organizando eventos, palestras, participando de eventos, bancas, dando palestras. Então, todas as coisas estão meio que convergindo: escrever, dar oficinas de escrita, aulas de literatura, refletir sobre o ensino, buscar formas alternativas de ensino e, principalmente, ler. Eu vivo de literatura, vivo de poesia, mas num sentido amplo: ser poeta é uma parte (a menos rentável, aliás, e a mais importante) do todo.

CROQUI – Quais são suas principais influências literárias e o que está lendo atualmente?
DIEGO GRANDO - Poxa, falar só das influências literárias é deixar boa parte do que me influencia de fora: Gessinger, Escher, números primos, psicodelia, o disco do Chico Anísio de 75, o do Fagner de 76, cultura canábica, ciência aleatória, etc. Fica o registro.
Bom, seria injusto não começar com o Drummond, embora hoje eu já me sinta “independente” dele. O Concretismo certamente me formou. Álvaro de Campos, Baudelaire, Ginsberg e Ferlinghetti. Apollinaire e Blaise Cendrars. Gullar. O João Cabral passou a ocupar um lugar importante nos últimos anos, foi quem mais reli e estudei. Não sei diferenciar bem “influência” de “gosto muito”. Proust. Os ensaios do Auden, os textos teóricos do Pound. Bolaño, Knausgård e Foster Wallace. A poesia do Gonçalo M. Tavares. Glauco Mattoso, Paulo Henriques Britto. Mais recentemente, Szymborska. Me sinto um irmão mais novo: Marco de Menezes, Samarone Lima, Marcelo Montenegro.

CROQUI – Já há novas datas e locais para o lançamento do Spoilers? Caso haja, quais?
DIEGO GRANDO - Rio e São Paulo, provavelmente na primeira quinzena de julho. Talvez Recife no segundo semestre.

Foto: Theo Tajes 


Diego Grando Nasceu em Porto Alegre, em 1981. Publicou “Desencantado carrossel”, “Sétima do sigular”, e o in-fólio “25 Rua do Templo / Palavra Paris”. Fas parte do Sarau Elétrico, tradicional evento de literatura que acontece em Porto Alegre. “Spoilers” foi desenvolvido como parte de sua tese de doutorado em Letras, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.







*Thiago Scarlata (1989) é poeta, músico, escritor e criador/editor do Blog Literário Croqui. Teve poemas traduzidos para o espanhol, publicados em antologias e também nas Revistas Gueto, Enfermaria 6, Escamandro, Mallarmagens, Monolito, Avenida Sul, Incomunidade, Janelas em Rotação, Poesia Brasileira Hoje, O poema do poeta, Poesia Avulsa, Literatura&Fechadura, Poesia Primata, Vero o Poema, Carlos Zemek, MOTUS, Jornal Correio Braziliense, Jornal RelevO, além de blogs literários. Foi finalista do PRÊMIO SESC DE LITERATURA 2016 e vencedor do CONCURSO MOTUS – MOVIMENTO LITERÁRIO DIGITAL 2017. É autor do livro de poesia “Quando Não Olhamos o Relógio, Ele Faz o Que Quer Com o Tempo” (Editora Multifoco, 2017).
E-mail: scarlatatts@gmail.com / croquiliteratura@gmail.com